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“Criolo, Amaro & Dino” em sinergia: álbum celebra as raízes ancestrais afro-atlânticas

De tempos em tempos, a música – arte do encontro – promove epifanias capazes de transcender e constelar grandes artistas. E quando o produto desse mistério se eterniza em álbuns e fonogramas, ele é capaz de atravessar gerações. Foi assim quando o cantor e compositor paulista Criolo uniu sua arte ao pianista pernambucano Amaro Freitas, em 2020, brindando com Milton Nascimento um desses momentos singulares, no projeto de releituras de obras do célebre compositor mineiro.


Agora, os dois se reencontram em outro alinhamento de astros, tendo Dino D´Santiago, português algarvio de ascendência cabo-verdiana, como terceiro e fundamental elemento criativo no álbum “Criolo, Amaro & Dino”, que registra a memorável troca artística de três dos mais destacados artistas contemporâneos, tendo a língua portuguesa e a ancestralidade africana como ponto de convergência. 


Ao longo das 12 faixas, o álbum mistura gêneros como rap, MPB, jazz, soul, morna e funaná, contando histórias sobre resiliência, amor com passagens de crítica social e ambiental, cada tema em seu momento, com a presença marcante da cultura afro-atlântica nos arranjos. O lançamento do álbum integra o projeto “Criolo 50”, iniciativa que marca as cinco décadas de vida do rapper e compositor.




Ouça:

(Re)encontros

“Conheci Amaro nas bênçãos de Milton Nascimento. Foi assim que a gente se conheceu”, destaca Criolo. E esse encontro viria a se renovar a partir de outra descoberta do artista paulista na música, desta vez, do outro lado do Oceano Atlântico. 


“Voltando de Sevilha, quando cheguei em Lisboa, conheci Dino na Associação Cultural de Cabo Verde. A identificação foi automática. Ele contou um pouco das suas histórias, da influência [da canção] ‘Nó na Orelha’ na vida dele e isso me deixou muito emocionado”, recorda. 


“Convidei ele para interpretar alguns sambas (estava para fazer um disco de samba). No meio disso, em uma das madrugadas ali no hotel, fiz um beat que viria ser o início da música ‘Esperança’. E aí eu chamei Amaro e já tinha falado um pouco de Dino para ele. Mostrei a música, falei de toda a emoção ali e ele gentilmente disse: ‘tô junto’. E aí o resto virou história”, relata.


Fora da agenda

Apesar da potência criativa que resultou desse encontro, o álbum não nasceu com nenhum planejamento, mas de um instante um convite casual por meio do WhatsApp de Criolo a Amaro, em Lisboa.

“Fui o primeiro a chegar no estúdio, depois chegou o Criolo. E eu disse: ‘tem um uma coisa aqui que eu queria te mostrar de uma harmonia’. E o ele olhou para mim e falou: ‘Mano, só toca uma coisa aí’. Aí eu comecei a tocar uma parada, ele sentou no banco do piano e ele já saiu metendo uma letra, mano. E aí a letra era tipo, sei lá, uma faca de dois gumes rasgando”, lembra Amaro.


O encontro levou horas, tempo suficiente para emergir a canção “Esperança”, que não só ganhou vida própria como foi nomeada ao Grammy Latino em 2024. “A existência desse trabalho trabalho aconteceu porque Criolo foi o grande arquiteto. Então, a gente já queria fazer muitas coisas juntos. E muita gente do Brasil fora do Brasil quer fazer coisa com o Criolo, que é um cara muito generoso, faz feet e compõe com muita gente. E ele é uma das pessoas que mais me manda música, que me mande ideias, que só fala sobre isso”, diz Amaro. 



Participações

Com produção musical de Daniel Ganjaman, arranjos de Amaro Freitas e texturas rítmicas africanas de Dino D’Santiago, o disco traz as participações especiais de Henrique Albino (sopros), Holly Seijy (beats) e do Grupo Clarianas (coro e percussão), que se somam às vozes de Criolo e Dino e ao piano de Amaro. Além do lançamento do álbum, o trio também disponibilizou o videoclipe com direção geral de Beatriz Berjeaut.


O disco foi gravado em sessões que passaram por Lisboa, Recife e Rio de Janeiro. Outro destaque do projeto é a bela arte de capa assinada por Vik Muniz.“Criolo, Amaro & Dino” está disponível em todas as plataformas de música.

O território das canções

O disco reúne canções que são como crônicas, como em “E Se Livros Fossem Líquidos?”, que passeia pelo imaginário literário em emio a metáforas políticas. Há, ainda, encontros comunitários, como em “Você Não Me Quis”, com a participação das Clarianas, ou “Menina do Côco de Garipé”, que trazem o som da rabeca, o coro e a percussão como elementos da ancestralidade da cultura popular.

A música de Cabo Verde se faz presente na verve poética de Criolo na voz de Dino, em “No Vento de Nós”. Já em “Seka”, o ritmo do batuku, pulso nascido do corpo e da resistência das mulheres cabo-verdianas, reverencia a canção. 


A faixa “Amazônia”, com levada jazzy e groove suave, contrasta com a mensagem ativista em defesa da floresta, “Corre, acorde ali tá pegando fogo, olha ali que tá pegando, a Amazônia está pegando fogo, não é só L.A. que tá pegando fogo”


Capa do álbum “Criolo, Amaro & Dino”, assinada por Vik Muniz


Processo de criação

Encontrar espaço na agenda corrida de ambos foi o primeiro desafio. “Todo mundo na sua rotina, na sua dinâmica, turnê para lá, turnê para cá, Criolo agora com a Turnê 50, mas tava fazendo outros corres… e ele diz: ‘Mano, a gente precisa arrumar um tempo para esse trabalho”. E aí eu respondo: ‘Olha, eu tenho quatro dias aqui de day off, na minha turnê europeia, eu estou comprando uma passagem, vamos para Lisboa’. E a gente se encontra em Lisboa”, relata Amaro Freitas.

“A primeira vez que vi Dino, eu acho que foi no almoço no restaurante de Carmen Virgínia. A gente tava lá, eu o Dino. E aí a gente se encontra em Lisboa e grava essa primeira parte e vão surgindo as coisas de uma forma muito natural”, comenta o pianista.

 Sinergia ancestral

“A sinergia [com Dino] foi incrível! é um irmão nosso, não dá para explicar, é inexplicável. E de uma genialidade… tem um oceano no meio, mas esse esse oceano não é a água que separou a gente. Porque quando a gente se vê, a gente cruza ele voando em dois segundos. O simples fato da nossa existência, de como se deu nossas histórias, os nossos pontos de partida, as histórias das nossas famílias, dos nossos antepassados, até chegar na gente. Isso aí já está gritando, a nossa força de nós três juntos, só a nossa existência ali”, compartilha Criolo. 


“O Amaro tem falado isso em todos os lugares que eu vou. O Brasil e o mundo receberam um presente quando ele nasceu. E ele é um filho de Pernambuco. Ele é uma ode à provocação. O inventivo para além de funcional. Uma maré de provocação a todos aqueles que queriam que nós tivéssemos nos lugares que nossos antepassados estavam para perpetuar o mal”, comenta o compositor paulista.

“Quando você encontra com essa força nordestina preta cheia de gentileza, a gente encontra com o D’Santiago que é um dos maiores representantes nas lutas por direitos civis na Europa. E, por a caso, uma das vozes mais incríveis do planeta, não tem como a gente não falar que a gente não quer se encontrar, mano. A gente vai achar um lugar na agenda para se encontrar”, comenta Criolo que antecipou um show já agendado do projeto no festival Primavera Sounds 2026, na cidade do Porto, em Portugal.

 

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Fonte

Redação

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