Categories: Cultura

Crime, romance e risadas: Margot Robbie no golpe mais charmoso que acaba de chegar à Netflix

A narrativa apresenta um veterano do estelionato que cruza o caminho de uma iniciante ambiciosa no circuito de furtos discretos e golpes de oportunidade. Ele seleciona alvos, mapeia hábitos, calcula coberturas e rotas de fuga. Ela quer aprender rápido, improvisa, falha, insiste e se aproxima do dinheiro sem chamar atenção. O encontro gera parceria instável que precisa funcionar sob pressão e sob vigilância constante. “Golpe Duplo” coloca Will Smith e Margot Robbie no centro dessa dinâmica e usa a presença dos atores para sustentar aproximações e recuos. Dirigido por Glenn Ficarra e John Requa, o filme arma situações de proximidade física e relógio apertado, em que um pequeno desequilíbrio de informação vale mais que força.

No primeiro bloco, o roteiro reduz a moral a uma operação logística: escolher a mesa, dividir tarefas, saber quando recuar. O veterano demonstra um repertório de abordagem em locais cheios, espalha a equipe por corredores e saídas, treina a parceira para distinguir distração útil de risco. A direção registra mãos, bolsos, relógios e bolsas com precisão quase didática. A câmera alterna planos abertos que situam a circulação com close-ups que isolam o objeto decisivo. A montagem acelera para sugerir fluência do grupo, mas preserva a leitura dos movimentos. O desenho de som privilegia passos, toques de vidro, fechos de metal e sinais curtos que marcam o compasso de cada aproximação. Essa clareza inicial prepara o terreno para quando as cifras realmente entram em jogo.

O filme organiza a tensão pelo fluxo de informação: quem sabe o quê, quando e com que certeza. O veterano controla o ritmo das revelações e administra o entusiasmo da parceira, que às vezes avança além do combinado e, em outras, hesita quando a execução pede frieza. A partir daí, o romance deixa de ser adorno e vira variável de risco. Beijos, confidências e promessas alteram rotas, deslocam prioridades e abrem margem para contragolpes de terceiros. O interesse nasce do impacto concreto desses gestos sobre as operações: um olhar dado na hora errada denuncia presença, uma ausência num ponto de encontro desmonta cobertura, uma palavra fora de lugar entrega pista a um segurança atento.

Will Smith constrói um profissional que parece sempre meio passo à frente, mas cuja autoconfiança cobra preço quando a mesa vira. A atuação explora ironia medida e gentileza estratégica, útil para se aproximar de alvos e recrutar cúmplices. Margot Robbie compõe a parceira com elasticidade: curiosa, rápida para ler ambientes e suficiente ousadia para testar limites. A química não depende de declarações; apoia-se em olhares e respostas corporais, reforçando a ideia de que ambos trabalham com sinais. Quando a relação esquenta, o filme pressiona a dupla com tarefas em que proximidade afetiva e precisão técnica se chocam.

A sequência em Nova Orleans, durante um jogo de futebol americano em estádio lotado, condensa a proposta. A multidão ruidosa cria abafamento, cifras trocam de mãos em minutos e a vaidade pesa tanto quanto a prudência. A direção mantém a câmera ligeiramente afastada para exibir a amplitude do evento e retorna ao detalhe para guiar a leitura: dedos, bilhetes, pequenos acenos, o tempo exato do sussurro ao ouvido. Não há celebração vazia da esperteza; há demonstração de que confiança demais abre brechas e que superstição empurra profissionais treinados para escolhas ruins.

A fotografia valoriza superfícies brilhantes, vidros e reflexos que duplicam pessoas divididas entre persona pública e intenção real. Quartos de hotel, corredores de serviço e varandas altas criam zonas de vigilância e exposição. Figurinos apostam em cortes limpos e cores que destacam a dupla no meio do luxo sem quebrar a camuflagem necessária. A trilha alterna leveza nas circulações com pressão quando o tempo encurta, sem sublinhar viradas. Há humor em acidentes operacionais, no improviso de cúmplices e na colisão entre técnica e egos turbinados pelos espaços frequentados.

Quando a trama migra para Buenos Aires e entra no universo do automobilismo, o filme amplia a escala sem perder o foco em decisões miúdas. Executivos defendem segredos de telemetria, seguranças vigiam acessos laterais e o casal precisa operar em campo menos conhecido. A narrativa trabalha com duplos e aliados duvidosos, planta pistas para desviar atenção e usa o passado comum da dupla para levantar dúvidas sobre lealdade. Rodrigo Santoro surge como peça que reúne dinheiro, vitrine e paranoia, forçando os protagonistas a recalibrar a parceria. A presença de capangas e consultores técnicos aumenta o ruído e exige maior rigor para manter clara a logística dos encontros e trocas, algo que funciona melhor quando as cenas permanecem ancoradas em objetos e rotas definidas.

Algumas escolhas flertam com o exagero e pedem economia. Em trechos que explicam viradas, os diálogos se estendem além do necessário e atrasam a progressão. Quando a direção retorna ao essencial — dois profissionais tentando ler um ao outro enquanto trabalham — a cena respira. A montagem volta a favorecer encaixe de ações, e a plateia acompanha causa e efeito sem atalhos verbais. A força dos melhores momentos vem da clareza com que pequenas decisões alteram o tabuleiro.

O romance não ocupa o posto de prêmio moral, e sim de ponto cego. A proximidade dá acesso e cria atalhos, mas também expõe rotinas e hábitos que adversários atentos podem copiar. A ideia se traduz em detalhes: códigos que deixam rastro, presentes que viram marca registrada, encontros repetidos em horários reconhecíveis. Quando a suspeita entra, a negociação muda de chave e gestos que antes funcionavam como senha se tornam prova de vulnerabilidade. Essa dinâmica sustenta o interesse sem recorrer a explosões ou perseguições prolongadas, mantendo a pressão centrada em leitura de sinais e controle de tempo.

“Golpe Duplo” rende melhor quando investe em clareza espacial e procedimentos de trabalho. A alternância entre espaços abertos e corredores apertados ajuda a distinguir fases de operação; a equipe distribuída em pontos de cobertura cria sensação de rede; e a câmera paciente ao seguir mãos e bolsos evita confusão nas trocas. Quando o roteiro se apoia nessa gramática, o suspense encontra ritmo constante. Ao privilegiar o efeito prático das escolhas e a observação de ambientes, o filme coloca sedução e engano lado a lado no mesmo ofício e encerra com a imagem fria do dinheiro contado sobre a mesa, lembrando que o erro mais caro nasce de um gesto confiante demais.

Filme:
Golpe Duplo

Diretor:

Glenn Ficarra e John Requa

Ano:
2015

Gênero:
Comédia/Crime/Drama/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

Recent Posts

Rio Open 2026 terá Musetti como cabeça 1, João Fonseca como 4 e despedida de Monfils

O Rio Open ATP 500, maior torneio de tênis da América do Sul, anunciou nesta…

26 minutos ago

Datena deixa a RedeTV! e terá programa na EBC; saiba mais

O apresentador José Luiz Datena confirmou sua saída da RedeTV! nesta quarta-feira (21) durante uma interação com…

56 minutos ago

Oito países confirmam adesão ao Conselho de Paz de Trump para Gaza

Os ministros das Relações Exteriores do Paquistão, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Turquia, Arábia…

1 hora ago

Azul terá novos voos a partir de Cuiabá

Azul Linhas Aéreas anuncia novas rotas diretas entre Cuiabá e cidades de Rondônia a partir…

2 horas ago

Onda Quadriculada, uma das mais perigosas do oceano

Ontem, quando escrevia o artigo sobre a onda umbigo da terra o algoritmo do Youtube…

2 horas ago

Líderes europeus têm esperança e ceticismo com acordo de Trump para a Groenlândia

Diversos líderes europeus se pronunciaram ao fim desta quarta-feira, 21, sobre a decisão de Donald…

2 horas ago