A missão começa com Bond em serviço, circulando por ambientes onde a etiqueta serve de biombo e onde um detalhe fora do lugar chama gente armada. Em “007 Contra Goldfinger”, ele recebe a tarefa de vigiar Auric Goldfinger, um milionário ligado a remessas de ouro que atravessam fronteiras como se fossem rotina. A primeira decisão do agente é direta e arriscada, aproximar-se sem entregar o motivo, e isso já custa horas em corredores, mesas de jogo e saguões, com idas e vindas que parecem lazer para quem vê de fora, mas viram trabalho de olho aberto.
Sean Connery conduz esse Bond com um corpo sempre pronto para levantar da cadeira e mudar de plano no meio da frase. Ele tem charme, mas também tem pressa, e o personagem compra acesso com sorriso e cobra informação com insistência, mesmo quando isso estica a noite e encurta o descanso. “007 Contra Goldfinger” acerta ao tratar a investigação como serviço que ocupa agenda e coluna vertebral, com esperas longas, conversas que precisam ser vencidas no detalhe e sinais que só aparecem para quem aguenta ficar no mesmo lugar tempo demais.
O antagonista é o tipo de figura que entende o mundo como conta fechada e ordem bem dada. Gert Fröbe dá a Goldfinger um jeito cordial na superfície, mas sempre com a impressão de que ele está pesando cada palavra como quem confere o próprio cofre. Ele compra segurança, contrata eficiência e transforma capricho em plano, e isso obriga Bond a gastar energia tentando reduzir distância sem perder o controle do que diz e do que ouve. Quando o agente é capturado, a narrativa troca conforto por restrição e obriga o personagem a negociar cada minuto de autonomia, preso a regras que não são dele.
Honor Blackman entra com força nesse jogo ao oferecer uma parceira que não aceita ficar parada ao lado do protagonista. Ela disputa espaço, testa limites e cria atrito com o jeito automático de Bond, empurrando o agente a recalcular atitudes que ele costuma usar como atalho. A relação entre os dois não se resolve em frase pronta, se resolve em quem segura a conversa, quem decide o próximo passo e quanto tempo se perde quando a confiança falha e alguém precisa esperar a outra pessoa agir.
Guy Hamilton dirige pensando em clareza e deslocamento, com mudança de cenário que tem função e não só luxo. O filme sai de ambientes de aparência tranquila e encosta em áreas de operação, alternando hotéis, estradas e espaços de segurança com leitura fácil de objetivo e de risco. O suspense nasce de coisas pequenas, horário, acesso a uma sala, a distância até o telefone, o caminho mais curto até um carro, e Bond precisa escolher entre sair rápido ou ficar um pouco mais para garantir uma pista. Essa escolha cobra fôlego e cobra discrição, porque cada minuto a mais aumenta a chance de alguém notar o homem errado no lugar errado.
Os recursos do universo 007 entram como ferramenta de trabalho, e não como enfeite. O que aparece como truque ou equipamento tem hora e lugar, e quase sempre exige coordenação e sangue frio para não virar problema extra, do tipo que prende o agente no mesmo corredor por tempo demais ou o obriga a mudar de rota às pressas. As sequências de ação surgem como continuação direta da investigação, quando a conversa não dá conta e o caminho mais curto vira correr, dirigir, escapar ou resistir a uma armadilha. Daí vem a sensação de movimento contínuo, porque cada obstáculo força uma decisão e cada decisão cobra tempo e segurança.
O roteiro de Richard Maibaum e Paul Dehn entende que Bond não vive só de risco, ele vive de risco administrado na ponta do lápis. O humor aparece como ferramenta de negociação, uma forma de ganhar segundos e tirar o outro do centro, não como piada solta. Também há hierarquia e protocolo por trás da missão, com ordens, chamadas e limites que travam o agente quando ele tenta agir fora do combinado. Quando Bond troca o acompanhamento discreto por um confronto mais direto, ele perde apoio, perde discrição e precisa operar com menos margem, carregando o próprio peso, sem garantia de resgate rápido.
Em comparação com “007 Contra o Satânico Dr. No” (1962), “007 Contra Goldfinger” parece mais seguro do próprio tamanho e mais disposto a levar a missão para uma escala maior, sem abandonar a linha investigativa. A promessa de um plano que encosta nas reservas americanas de ouro, guardadas no Forte Knox, amplia o jogo e empurra Bond para fora da zona de conforto, com deslocamentos mais longos e vigilância mais apertada. O filme permanece divertido porque transforma o trabalho do espião em ação concreta, observar, aproximar-se, errar, corrigir, e ainda entrega um vilão memorável e um protagonista que precisa merecer cada avanço, pagando em sono, paciência e risco. Quando a sequência final chega, a sensação é a de missão cumprida do jeito que dá, com Bond ajeitando o paletó, conferindo o relógio e saindo para a rua.
Filme:
007 Contra Goldfinger
Diretor:
Guy Hamilton
Ano:
1964
Gênero:
Ação/Aventura/Thriller
Avaliação:
10/10
1
1
Marcelo Costa
★★★★★★★★★★
A prova do líder desta quinta-feira (22) teve uma eliminatória durante o período da tarde. Quatro…
Cada ser humano carrega suas perdas, medos e a solidão com a qual vai aprendendo…
Os Estados Unidos nomearam diplomata que já foi duas vezes embaixadora dos EUA como sua…
Quando voc encontra uma cadela linda em um lugar inusitado ou no meio do nada,…
A primeira linha de ação de “Bastardos Inglórios” é simples de enunciar e difícil de…
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e o presidente do Congresso…