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Considerado o 2º melhor filme de gângster da história do cinema, obra-prima de Martin Scorsese, indicada a 6 Oscars, está na Netflix

Henry Hill cresce em um bairro de Nova York observando homens que nunca esperam em filas e sempre têm dinheiro à mão. Ainda adolescente, aproxima-se de pequenos serviços para ganhar confiança, aprende códigos de silêncio, percebe as vantagens imediatas e o perigo constante. Lançado em 1990 no Brasil como “Os Bons Companheiros”, dirigido por Martin Scorsese, reúne Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci e Lorraine Bracco na linha de frente; com roteiro de Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, a narrativa adapta o livro “Wiseguy”, de Nicholas Pileggi, cujo relato de bastidores orienta o percurso do protagonista da iniciação ao desgaste, sem antecipar o destino final.

A trajetória mostra a entrada de Henry nos mecanismos do crime, o convívio com parceiros mais experientes e a educação informal baseada em favores, lealdade e demonstrações de força. O dinheiro circula, os restaurantes se abrem, as portas giram, a sensação de impunidade cria conforto e risco ao mesmo tempo. Aos poucos, a convivência com figuras como Jimmy e Tommy define padrões de conduta: recompensa imediata para quem cumpre o combinado, punição dura para quem falha. O cotidiano do grupo alterna festas, negócios e desaparecimentos de quem ameaça a estabilidade do círculo.

Ray Liotta conduz Henry como alguém que busca aprovação sem perder o faro para oportunidades. O sorriso que pede licença e, ao mesmo tempo, reivindica espaço, dá o tom de um sujeito dividido entre afeto e lucro. Robert De Niro oferece a Jimmy uma calma que intimida; o gesto contido comunica cálculo e instinto de sobrevivência. Joe Pesci encarna a instabilidade que mantém todos em alerta, transformando conversas triviais em potencial de risco. Lorraine Bracco apresenta Karen com foco nos paradoxos da vida ao lado do crime: o fascínio pela proteção e o medo constante de perder o controle doméstico.

A construção rítmica dá ao filme um pulso reconhecível. A montagem de Thelma Schoonmaker alterna passagens longas e cortes secos, deixando claros saltos de tempo e mudanças de humor. A música popular norte-americana acompanha décadas, situando o espectador em épocas distintas e marcando a passagem da euforia para a exaustão. Não funciona como ornamento: as escolhas musicais comentam o estado emocional dos personagens e a temperatura dos negócios, acompanhando ganhos rápidos, ajustes internos e a escalada de tensão que se instala quando a confiança se quebra.

Michael Ballhaus filma espaços fechados, mesas cheias e corredores que parecem nunca terminar, sugerindo proximidade e vigilância. A câmera se move com fluência, ora acompanhando conversas informais, ora observando gestos discretos que valem mais do que frases extensas. As cores, as roupas e os objetos denunciam a época, o tipo de consumo e a necessidade de exibir sucesso, mesmo quando as contas começam a não fechar. Esse cuidado com ambientes e figurinos transforma cada cenário em indicador social, revelando de onde vem o dinheiro e como ele é gasto no ciclo da ostentação.

O filme evita pregação. Mostra como regras não escritas comandam relações: quem apresenta um amigo, quem tira alguém de cena, quem guarda o envelope, quem fecha a boca na hora certa. A escalada de Henry passa por esses rituais, pelos presentes que consolidam alianças e pelos silêncios que compram tempo. Quando a fronteira entre negócios e família fica porosa, o risco deixa de ser apenas externo e passa a morar no interior da casa. A narrativa dispensa explicações teóricas; deixa que gestos e consequências falem pela ordem que se pretende inabalável.

Karen ganha espaço como contraponto fundamental. A personagem observa os benefícios imediatos, mas identifica as rachaduras que se abrem a cada madrugada prolongada. Bracco imprime inquietação sem perder o senso de realidade: há atração pelo conforto e receio dos homens que o garantem. O ponto de vista dela adiciona dimensão doméstica ao retrato do crime, lembrando que a prosperidade aparente tem preço cobrado em ligações de madrugada, visitas indesejadas e objetos guardados em lugares improváveis. Esse olhar desloca a narrativa do circuito exclusivamente masculino e ilumina contradições do casamento atravessado por dinheiro ilícito.

A violência aparece sem maquiagem e sem espetáculo. O que conta é o efeito sobre quem assiste e sobre quem participa. Uma palavra torta muda o rumo de uma noite; um erro num negócio inflaciona suspeitas; uma brincadeira fora de hora vira ameaça em segundos. Essa instabilidade constante explica a necessidade de rituais, códigos e hierarquias, porque a simples proximidade com o dinheiro fácil exige controle e vigilância. O humor, quando irrompe, funciona como defesa temporária, um respiro que não elimina o cheiro de perigo acumulado nos cantos.

Scorsese guia a narrativa com atenção ao detalhe que revela função social: o terno chamativo que sinaliza posição, o carro que indica novo patamar, a mesa reservada que legitima presença. Nada é gratuito porque tudo serve à política do grupo, que recompensa fidelidade e pune indiscrição. À medida que o tempo passa, os objetos perdem brilho, os hábitos se tornam repetição e o circuito que parecia infinito mostra vazios. A vida que começou como prêmio vira rotina de justificativas, visitas tensas e promessas de acerto que nunca se cumprem integralmente.

A adaptação do livro de Nicholas Pileggi garante densidade factual. O acúmulo de pequenas situações confere verossimilhança às operações, aos apelidos, às manobras de bastidores. Sem anunciar grandes teses, o filme descreve um mundo onde o pertencimento vale tanto quanto o dinheiro, e a aparência de tranquilidade depende de favores que devem ser pagos. Quando o equilíbrio se rompe, cada gesto vira prova em potencial, cada telefonema vira ponto de interrogação, e os laços que sustentavam a rede mostram fios gastos pelo uso excessivo.

“Os Bons Companheiros” permanece atual porque trata de ascensão social rápida, da performance pública e da disputa por reconhecimento. As imagens de consumo, as roupas bem cortadas, a mesa farta e o sobrenome sussurrado na porta compõem um retrato de aspiração que ultrapassa o recorte do crime. O fascínio por atalhos convive com o medo de cair do pedestal, e a ansiedade por preservar status empurra decisões que ampliam o risco. Sem detalhar o desfecho, as passagens derradeiras indicam que a busca por estabilidade cobra uma conta que nem sempre cabe no bolso de quem a contraiu.

Filme:
Os Bons Companheiros

Diretor:

Martin Scorsese

Ano:
1990

Gênero:
Biografia/Crime/Drama

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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