O afastamento do secretário-adjunto de Turismo de São Paulo e a demissão do presidente da SPTuris, (segundo matéria do G1 e repercutida no DT) após apurações da Controladoria Geral do Município sobre possíveis vínculos privados e contratos milionários, recolocam em debate um dos temas mais sensíveis da administração pública contemporânea: a credibilidade da gestão do turismo.
CONSELHO EDITORIAL DO DIÁRIO
No caso paulistano, a gravidade institucional não reside apenas nos valores envolvidos ou no impacto político imediato, mas no padrão revelado pelas investigações: relações societárias pregressas, existência de procurações e uma sequência de contratos firmados com empresa ligada ao entorno do gestor público. A intervenção do Executivo municipal, após orientação do órgão de controle, evidencia o peso institucional do episódio.
O dano é duplo. Jurídico, pela possível afronta aos princípios constitucionais da impessoalidade e da moralidade administrativa. Reputacional, porque a SPTuris opera no centro da estratégia de promoção turística e captação de eventos da maior cidade do país. Quando há ruído na governança, o reflexo atinge toda a cadeia produtiva do turismo.
Turismo sob suspeita: conflito de interesses e captura do orçamento
A administração pública convive com uma equação delicada: poucos decidem, muitos financiam e o controle, muitas vezes, é posterior ao gasto. Quando um dirigente mantém laços relevantes com fornecedores — sejam societários, contratuais ou por meio de instrumentos como procurações — instala-se o risco clássico de conflito de interesses.
Em situações mais graves, ocorre a chamada captura institucional: a estrutura pública passa a funcionar como extensão de interesses privados, priorizando proximidade em vez de mérito técnico, eficiência e competitividade.
O turismo é particularmente vulnerável a esse fenômeno. Trata-se de um setor intensivo em contratos de:promoção institucional, eventos e grandes ativações, marketing e mídia, cenografia e produção, patrocínios e parcerias estratégicas.
São áreas onde frequentemente se invocam justificativas como exclusividade, urgência ou notório saber. Sem governança sólida, transparência ativa e auditoria preventiva, cria-se o ambiente ideal para o ciclo conhecido:
contratações pouco transparentes → suspeitas públicas → investigações → mudanças de comando → paralisia administrativa.
O prejuízo não é apenas político. Ele afeta diretamente a previsibilidade do ambiente de negócios, a segurança jurídica dos contratos e a confiança dos investidores.
Turismo e reputação: ativo econômico, não peça publicitária
A cadeia do turismo depende de confiança. Investidores, companhias aéreas, promotores de eventos, redes hoteleiras e patrocinadores avaliam riscos institucionais antes de decidir onde aportar recursos.
Quando a entidade responsável pela promoção do destino se torna personagem recorrente de apurações e denúncias, o impacto ultrapassa a esfera política. O destino perde competitividade, encarece garantias contratuais, afasta parceiros estratégicos e enfraquece sua imagem internacional.
Em um setor onde reputação é ativo econômico mensurável, escândalo não é “crise de comunicação”. É custo real.
A lição técnica é clara: credibilidade não se constrói com discursos ou campanhas institucionais.
Misturar a coisa pública com interesses privados não é apenas falha ética. É ruptura institucional. Compromete a concorrência, desrespeita o contribuinte e fragiliza o destino turístico no cenário nacional e internacional.
Políticas públicas exigem integridade, técnica e prestação de contas — o restante é marketing para encobrir fragilidades estruturais e falcatruas.
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