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Comédia romântica na Netflix com Melissa McCarthy é o colapso tecnológico mais fofo que você vai ver

Comédias sobre inteligência artificial tendem a cair em dois extremos: a distopia tecnológica ou o otimismo ingênuo. “Superinteligência” tenta ocupar um meio-termo improvável, onde o apocalipse digital é apenas o pano de fundo para um romance de gente comum, com suas inseguranças e contradições. Melissa McCarthy é o fio condutor dessa fábula contemporânea, uma mulher comum escolhida por uma entidade artificial para representar o destino da humanidade, uma escolha tão absurda quanto simbólica. No fundo, o que está em jogo não é a dominação das máquinas, mas a dificuldade de se conectar em um mundo onde até os algoritmos parecem mais autoconscientes que nós.

O filme brinca com o contraste entre o gigantismo da tecnologia e o banal da vida cotidiana. Enquanto a voz de James Corden se manifesta como uma inteligência capaz de controlar o planeta, Carol, a protagonista, está mais preocupada em reconquistar o ex-namorado e em entender o que significa ser “suficiente”. A graça, e o limite, do roteiro está justamente nesse descompasso: o destino do mundo decidido entre um café requentado, uma conversa truncada e a eterna dúvida sobre mandar ou não uma mensagem. Essa ironia sobre o colapso afetivo da modernidade é o ponto mais interessante da narrativa, mesmo que o humor por vezes escorregue na previsibilidade.

Melissa McCarthy sustenta a trama com uma energia cômica que, apesar de contida, ainda carrega sua marca registrada: a mistura de vulnerabilidade e histrionismo. Sua presença impede que o filme desabe na mediocridade, mas não consegue compensar um roteiro que parece ter medo de ser realmente engraçado. Há boas ideias, como a inteligência artificial questionando o sentido da bondade humana, mas elas são diluídas em piadas de escritório e cenas que se alongam sem necessidade, como se o filme tivesse vergonha de explorar o absurdo que ele mesmo propõe. A sátira sobre o controle tecnológico se perde entre tentativas de agradar a todos, e o resultado é um produto domesticado, mais próximo de um episódio de comédia romântica do que de uma reflexão sobre a era digital.

Ainda assim, há momentos de charme involuntário. A relação entre Carol e George (Bobby Cannavale) funciona porque abraça a mediocridade cotidiana com uma honestidade desarmante. O filme parece entender que a verdadeira comédia não está nas explosões de humor, mas na leve tristeza de perceber que a vida se repete, mesmo quando o mundo ameaça acabar. É nesse limiar entre o tédio e o afeto que “Superinteligência” encontra alguma sinceridade, a de reconhecer que o ser humano, com toda sua irracionalidade emocional, continua sendo o algoritmo mais imprevisível de todos.

O que falta é coragem. Coragem de escolher entre o riso e a crítica, entre o entretenimento e o comentário social. A direção parece se contentar com a superfície, oferecendo uma sucessão de boas intenções embaladas em clichês tecnológicos. E, no entanto, talvez seja exatamente essa indecisão o que torna o filme curioso: um espelho do nosso tempo, em que até a inteligência artificial precisa ser simpática para não nos assustar. “Superinteligência” é leve, agradável e esquecível, mas também um retrato involuntário de uma era que prefere rir de si mesma a encarar a própria solidão.

O filme não revoluciona nem a comédia nem a ficção científica, mas insinua algo sobre o esgotamento das narrativas modernas: quando tudo é mensurável, até o amor precisa de métricas. E se o cinema já foi o espaço da imaginação, aqui ele se transforma num aplicativo de conforto emocional, pronto para nos dizer que, apesar de tudo, ainda somos necessários, nem que seja para entreter uma máquina.

Filme:
Superinteligência

Diretor:

Ben Falcone

Ano:
2020

Gênero:
Ação/Comédia/Ficção Científica/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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