“Charlie, Um Grande Garoto” acompanha a tentativa quase desesperada de um adolescente de transformar exclusão em vantagem social. Charlie Bartlett, vivido por Anton Yelchin com uma mistura cativante de ingenuidade e cálculo, já foi expulso de colégios particulares demais para que sua mãe, Marilyn (Hope Davis), continue resolvendo tudo com dinheiro e pedidos educados. Sem alternativa, ela o matricula em uma escola pública, onde ele deixa de ser o garoto privilegiado e vira apenas mais um rosto deslocado no corredor.
Logo nos primeiros dias, Charlie entende que simpatia sozinha não garante acesso a grupo nenhum. Ele tenta se aproximar, exagera na boa vontade, distribui sorrisos, mas encontra resistência. O ambiente é menos polido e muito mais direto do que ele conhece. O que poderia ser só mais uma história sobre adaptação ganha outra camada quando Charlie começa a frequentar o consultório do psicólogo da escola. Ali ele descobre algo que muda completamente sua posição no pátio: diagnósticos geram prescrições, e prescrições viram moeda social.
A partir daí, o filme assume um ritmo ágil e espirituoso. Charlie passa a ouvir os colegas, anotar queixas, retornar ao consultório com relatos que não são exatamente seus. Ele cria uma rede informal de aconselhamento adolescente que mistura boa intenção, oportunismo e uma enorme carência coletiva por atenção. A comédia nasce justamente desse contraste: enquanto os alunos dramatizam sintomas, Charlie conduz tudo com a seriedade de um pequeno executivo da saúde mental. É engraçado porque é absurdo, mas também porque revela uma verdade desconfortável sobre como jovens pedem ajuda.
O sucesso repentino, claro, chama atenção. O diretor Nathan Gardner, interpretado por Robert Downey Jr. com energia nervosa e vulnerável, não é um vilão caricatural. Ele é um homem pressionado, lidando com problemas pessoais e tentando manter autoridade sobre uma escola inquieta. Quando percebe que algo circula pelos corredores além de cadernos e mochilas, ele observa, questiona e aperta o cerco. A tensão não vem de grandes discursos, mas da possibilidade concreta de suspensão, de perda de espaço, de mais uma expulsão no currículo de Charlie.
Hope Davis, como Marilyn, dá ao filme um contraponto essencial. Sua mãe não é ausente, mas tampouco totalmente presente; ela oscila entre proteger o filho e admitir que ele precisa enfrentar as consequências do que faz. Essa relação adiciona peso emocional à trama e impede que a história se transforme apenas em farsa escolar. Há algo triste por trás do charme de Charlie, e Yelchin capta isso com delicadeza rara, equilibrando ironia e fragilidade.
O romance que surge ao longo da história também complica o jogo. Ao se aproximar da filha do diretor, Charlie não está só flertando; está atravessando uma linha invisível que conecta vida pessoal e autoridade institucional. O que antes era apenas uma estratégia de popularidade passa a ter impacto direto sobre confiança, reputação e permanência na escola. E o filme sabe explorar esse terreno com leveza, sem transformar cada conflito em lição moral.
Jon Poll dirige tudo com olhar atento ao ritmo adolescente. As cenas nos corredores têm energia caótica; as conversas no gabinete do diretor carregam um silêncio mais pesado. O contraste ajuda a entender como decisões aparentemente pequenas podem ganhar proporções enormes quando atravessam a estrutura formal da escola. Nada é tratado como tese; tudo é vivido na prática, com consequências que se acumulam.
“Charlie, Um Grande Garoto” funciona porque não julga seu protagonista. Ele erra, manipula, tenta agradar, tenta pertencer. Ao mesmo tempo, demonstra empatia genuína pelos colegas, o que torna suas atitudes ambíguas e humanas. O filme encontra equilíbrio entre humor e drama sem precisar exagerar em nenhum dos dois lados. O longa deixa a pergunta silenciosa sobre até onde vale ir para ser aceito, especialmente quando o atalho começa a cobrar um preço alto demais.
Filme:
Charlie, Um Grande Garoto
Diretor:
Jon Poll
Ano:
2007
Gênero:
Comédia/Drama/Romance
Avaliação:
8/10
1
1
Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
O Portal do Hoteleiro, plataforma de capacitação e comunicação da ABIH-SP, lançou uma página especial…
O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou novamente que o deputado federal Nikolas Ferreira…
Em “A Grande Mentira”, dirigido por Bill Condon, Ian McKellen e Helen Mirren travam um…
Delta Air Lines anuncia pagamento de US$ 1,3 bilhão em participação nos lucros a funcionáriosA…
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia enviar ajuda humanitária a Cuba…
A morte do astro da série "Dawson's Creek" James Van Der Beek, aos 48 anos,…