Em “A Crônica Francesa”, dirigido por Wes Anderson e estrelado por Benicio Del Toro, Adrien Brody e Tilda Swinton, a morte súbita do editor Arthur Howitzer Jr. obriga a equipe da revista The French Dispatch a preparar uma edição final antes de fechar as portas para sempre.
Howitzer sempre comandou a redação com regras claras e uma confiança quase obsessiva na palavra escrita. Quando ele morre, deixa em testamento uma ordem direta: publicar um último número e encerrar a revista. Não há espaço para debate. Os jornalistas precisam organizar textos, revisar provas e enviar tudo à gráfica dentro do prazo. O luto fica para depois. O que está em jogo agora é a sobrevivência da reputação da publicação.
Herbsaint Sazerac assume a tarefa de apresentar Ennui-sur-Blasé aos leitores. Ele percorre ruas, prédios antigos e bairros que mudaram de função ao longo do tempo. Observa o que foi reformado, o que foi abandonado e o que continua igual apesar dos discursos oficiais. Sua reportagem precisa abrir a edição com autoridade, porque é ela que contextualiza todo o restante.
Sazerac enfrenta a dificuldade de falar sobre um lugar que parece acomodado na própria ironia. Ainda assim, organiza seu material e entrega um texto que equilibra memória e crítica. A revista garante, com isso, uma porta de entrada sólida para o leitor.
A segunda reportagem mergulha na história do pintor Moses Rosenthaler, interpretado por Benicio Del Toro. Preso, ele transforma a cela em ateliê e produz obras que chamam atenção fora da prisão. A jornalista J.K.L. Berensen, vivida por Tilda Swinton, apresenta o caso em uma palestra elegante, explicando como aquelas telas atravessam muros e chegam ao mercado.
Quem aposta alto nesse talento é o marchand Julien Cadazio, papel de Adrien Brody. Ele negocia vendas, organiza exposições e tenta contornar as limitações impostas pelo sistema prisional. Cada quadro precisa de autorização para sair dali. Se algo falha, o negócio trava. A matéria ganha força justamente nesse atrito entre arte, dinheiro e controle institucional.
Há um humor sutil na forma como a alta cultura tenta domesticar o caos da prisão. A plateia escuta atenta, como se estivesse diante de um clássico consagrado, enquanto a origem turbulenta das obras permanece ali, impossível de ignorar.
Lucinda Krementz acompanha um grupo de estudantes que inicia um protesto aparentemente pequeno, ligado a regras internas da universidade. Aos poucos, a pauta se amplia e o clima nas ruas muda. Ela participa de reuniões, entrevista líderes e precisa decidir o que publicar sem perder o acesso às fontes.
O movimento ganha dimensão política e chama atenção das autoridades. Krementz sabe que um texto mal calculado pode fechar portas ou colocar alguém em risco. Sua reportagem equilibra proximidade e distanciamento, garantindo à revista um retrato vivo daquele momento. O humor aparece nas contradições dos próprios estudantes, divididos entre idealismo e vaidade.
Roebuck Wright participa de um jantar com o comissário de polícia de Ennui, preparado pelo tenente Nescaffier, que também é chef. À mesa, relatos sobre um caso delicado circulam entre pratos sofisticados. Wright precisa ouvir com atenção e medir cada pergunta.
O encontro mistura formalidade e tensão. A qualquer momento, uma palavra atravessada pode encerrar a conversa. Ainda assim, ele consegue reunir material suficiente para fechar a reportagem e ampliar o alcance da edição final.
Quando os quatro textos estão prontos e o obituário de Howitzer é concluído, a redação envia o material para impressão. A revista cumpre a última vontade do editor. O prédio pode até esvaziar depois, mas aquela edição circula e preserva o legado de uma equipe que, mesmo sob pressão, escolheu terminar o trabalho com rigor e personalidade.
Filme:
A Crônica Francesa
Diretor:
Wes Anderson
Ano:
2021
Gênero:
Comédia/Drama/Romance
Avaliação:
9/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
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