Às vezes, o que abala um casamento não é uma traição, mas uma frase sussurrada no lugar errado. Em “Verdades Dolorosas”, Nicole Holofcener transforma essa situação aparentemente banal em um retrato afiado, engraçado e desconfortavelmente reconhecível da vida a dois. Beth, vivida por Julia Louis-Dreyfus, é uma escritora respeitada por seus livros de memórias e professora de escrita criativa em Nova York.
Ela acaba de terminar seu primeiro romance de ficção e aguarda validação: da agente, do mercado, mas principalmente do marido. Don, interpretado por Tobias Menzies, é terapeuta e parece um parceiro amoroso, sempre pronto a incentivar. O problema começa quando a agente sugere várias revisões no manuscrito, abalando a confiança de Beth. Don tenta compensar com apoio incondicional, mas esse apoio não é tão sólido quanto parece.
Em uma cena decisiva, durante uma conversa casual em uma loja, Don admite a outra pessoa que não gostou do livro da esposa e que não teve coragem de dizer isso a ela. Beth escuta tudo por acaso. O que poderia ser apenas um comentário vira uma rachadura real. A partir daí, cada gesto cotidiano passa a carregar um peso novo. O elogio que antes confortava agora soa suspeito. O silêncio, que era rotina, vira estratégia.
Julia Louis-Dreyfus conduz essa transformação com precisão admirável. Beth não explode de imediato; ela observa, recalcula, testa o marido em pequenas situações. Tobias Menzies constrói Don como alguém que não quer ferir, mas também não sabe sustentar a própria frustração. Ele é um terapeuta que tenta ajudar pacientes desinteressados enquanto evita encarar conflitos dentro de casa, e essa contradição dá ao personagem uma vulnerabilidade quase dolorosa.
Michaela Watkins, como Sarah, irmã de Beth, traz leveza e uma dose de realismo prático. Ela admite que também suaviza críticas ao marido, o ator Mark, sugerindo que pequenas mentiras fazem parte do convívio amoroso. Só que, para Beth, isso não basta. A questão deixa de ser o livro e passa a ser confiança. E quando Elliot, o filho do casal, vivido por Owen Teague, acusa a mãe de pressioná-lo a ser extraordinário, o conflito se amplia: não é apenas sobre sinceridade conjugal, mas sobre expectativas familiares.
O que impressiona em “Verdades Dolorosas” é como Holofcener encontra humor nas situações mais desconfortáveis. Há constrangimento, há ironia, há diálogos que parecem saídos de uma conversa real entre adultos que se amam, mas se magoam. A comédia nasce justamente do reconhecimento: todos já mentimos para proteger alguém, ou para nos proteger. A diretora nunca exagera o drama; ela prefere observar como cada palavra altera o clima da casa, como se a intimidade tivesse regras invisíveis sendo renegociadas a cada jantar.
O filme acompanha as tentativas de Beth e Don de reorganizar a relação depois que a idealização cai por terra. Ele lida com a própria insegurança profissional e até com questões de envelhecimento; ela precisa decidir se quer apenas aplauso ou também verdade. O roteiro nunca transforma ninguém em vilão. Ao contrário, mostra duas pessoas razoáveis tentando equilibrar amor e honestidade, algo que, na prática, é muito mais complicado do que parece.
“Verdades Dolorosas” é uma comédia dramática sobre fragilidade, ego e afeto. É leve sem ser superficial, engraçado sem ser cruel. E deixa no ar uma pergunta incômoda: o que sustenta um relacionamento duradouro, a sinceridade absoluta ou a delicadeza estratégica? Nicole Holofcener não traz respostas em uma bandeja, mas conduz essa história com uma maturidade rara, confiando que o público reconheça, em cada silêncio constrangido, um pedaço da própria vida.
Filme:
Verdades Dolorosas
Diretor:
Nicole Holofcener
Ano:
2023
Gênero:
Comédia/Drama/Romance
Avaliação:
8/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★
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