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Comédia alemã chega à Netflix e é programa perfeito para seu feriado

Logo na chegada ao centro de treinamento, “Comer, rezar e ladrar” deixa claro que ninguém ali está exatamente preparado para o que vem pela frente. O retiro, instalado nas montanhas tirolesas, funciona com uma lógica simples e implacável: rotina rígida, tarefas práticas e zero paciência para desculpas. É nesse cenário que Ursula (Alexandra Maria Lara), uma política em plena tentativa de polir a própria imagem pública, surge com Brenda, uma cadela que claramente não recebeu o memorando sobre cooperação. Ursula não gosta de cães, e o desconforto dela não demora a aparecer, primeiro em gestos pequenos, depois em tentativas explícitas de controlar a situação como se estivesse em uma coletiva de imprensa.

O contraste entre intenção e prática se repete com Babs (Anna Herrmann), que chega com Torsten, um cachorro grande, barulhento e absolutamente indiferente às suas tentativas gentis de comando. Babs acredita que carinho resolve tudo, mas o ambiente do curso exige precisão, repetição e firmeza, três coisas que ela demora a aceitar. Enquanto tenta improvisar soluções afetuosas, ela se vê cada vez mais perdida, especialmente quando percebe que os outros participantes começam a avançar, ainda que tropeçando, enquanto ela permanece no mesmo lugar.

No meio desse grupo, Ziggy e Helmut transformam qualquer exercício em uma extensão de suas próprias brigas. A pequena Gaga, uma Yorkshire Terrier mimada, parece menos problemática do que a relação dos dois, que disputam controle até nas tarefas mais simples. Cada comando vira um teste de autoridade, e cada erro alimenta um novo conflito. O resultado é um desgaste que não fica restrito ao casal — ele contamina o ritmo do grupo inteiro, obrigando o treinador a intervir mais vezes do que gostaria.

E então há Hakan, o mais silencioso entre eles, acompanhado de Roxy, um pastor belga que carrega uma insegurança visível. Hakan observa mais do que fala, como se estivesse tentando entender as regras antes de se comprometer com elas. O problema é que o curso não espera. Cada hesitação custa tempo, e o atraso começa a pesar quando os exercícios se acumulam. Ele não diz, mas a dúvida constante sobre o próprio desempenho acaba se refletindo diretamente em Roxy, que responde com a mesma instabilidade.

No centro de tudo está Nodon (Devid Striesow), o treinador que conduz o curso com uma mistura de paciência calculada e métodos pouco convencionais. Em vez de focar apenas nos cães, ele direciona a atenção para os donos, interrompendo comportamentos automáticos e expondo incoerências que ninguém ali queria encarar. Sua abordagem incomoda, principalmente porque elimina qualquer espaço para fingimento. Não adianta parecer confiante, é preciso agir como tal, e isso, para muitos, é mais difícil do que parece.

A comédia ganha força justamente nesses momentos de confronto direto entre expectativa e realidade. Em uma das atividades coletivas, um exercício simples de comando se transforma em um caos quase coreografado: cada dono interpreta as instruções à sua maneira, os cães respondem de formas imprevisíveis, e o resultado é um cenário desorganizado que obriga Nodon a interromper tudo. O riso vem fácil, mas carrega um certo constrangimento, porque fica evidente que o problema não está nos animais.

Com o passar dos dias, o isolamento do retiro começa a fazer efeito. Sem distrações externas, os participantes são forçados a encarar não só suas dificuldades com os cães, mas também os próprios padrões de comportamento. Ursula, por exemplo, tenta inicialmente negociar cada atividade como se estivesse defendendo um projeto político, mas aos poucos percebe que ali não há espaço para retórica. Ou ela executa, ou fica para trás. Essa mudança de postura não acontece de forma repentina, mas se constrói em pequenos ajustes que começam a produzir resultados visíveis.

Babs, por sua vez, enfrenta um processo mais lento e emocional. Abrir mão da ideia de que afeto resolve tudo exige dela uma revisão prática de atitudes, e isso cobra um preço. Cada tentativa frustrada com Torsten pesa mais do que ela gostaria de admitir, mas também a empurra para um tipo de aprendizado que não passa pela teoria. Quando finalmente consegue estabelecer algum controle, o avanço não é só técnico, ele muda a forma como ela se posiciona diante dos outros.

O curso avança com essa lógica de tentativa e erro, onde cada pequeno progresso vem acompanhado de um ajuste interno. Ziggy e Helmut são obrigados a interromper suas disputas para conseguir concluir tarefas básicas, enquanto Hakan aprende, ainda que aos poucos, a agir com mais segurança diante de Roxy. Não há grandes viradas espetaculares, mas uma sequência de mudanças concretas que vão reposicionando cada um dentro do grupo.

O treinamento deixa de ser apenas sobre cães obedientes. Ele se transforma em um processo de exposição e reorganização pessoal, onde cada participante precisa lidar com aquilo que tentou evitar desde o início. E, nesse percurso, o que começa como uma solução prática para problemas domésticos acaba revelando algo bem mais incômodo, e, por isso mesmo, muito mais engraçado de acompanhar.

Filme:
Comer, Rezar e Ladrar

Diretor:

Marco Petry

Ano:
2023

Gênero:
Comédia

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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