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Com Russell Crowe e Aaron Taylor-Johnson, filme mais sombrio da Marvel aposta em violência crua e está na HBO Max

“Kraven: O Caçador” chega carregando um estigma que antecede qualquer julgamento estético: o de integrar um universo que parece existir mais por teimosia corporativa do que por desejo narrativo. Ainda assim, o filme surpreende justamente por não tentar se esconder atrás de ironias fáceis ou da autoparódia que virou muleta no gênero. Aqui, a aposta é outra: violência frontal, conflitos familiares e um protagonista tratado com uma seriedade quase deslocada para um personagem que, em tese, deveria servir apenas como engrenagem de franquia.

A trama acompanha Sergei Kravinoff, vivido por Aaron Taylor-Johnson, desde a infância marcada pela relação brutal com o pai, Nikolai, interpretado por Russell Crowe. Criado sob uma lógica de força, sobrevivência e humilhação emocional, Sergei cresce transformando o trauma em método. Após um episódio decisivo envolvendo um ataque animal e uma intervenção quase mística, ele passa a desenvolver habilidades sobre-humanas e escolhe direcionar sua fúria contra criminosos que escapam das estruturas formais de punição. O enredo não se dispersa em ameaças globais: tudo gravita em torno da herança paterna, da culpa e da necessidade de romper um ciclo de violência herdada.

Conflito de sangue e poder

A relação entre Sergei e Nikolai é o eixo dramático mais consistente do filme. Russell Crowe constrói um patriarca que não busca empatia, apenas obediência. Não há tentativa de redenção nem camadas sentimentalizadas: trata-se de um homem que entende o mundo como território de caça. Esse embate dá ao filme um peso raro dentro desse tipo de produção, porque o conflito não depende de artefatos mágicos ou conspirações externas, mas de uma lógica familiar que sufoca. Taylor-Johnson responde à altura, assumindo um protagonista contido, físico, frequentemente silencioso, como se cada gesto carregasse anos de ressentimento não verbalizado.

Violência sem verniz

Sob a direção de J.C. Chandor, a brutalidade não busca elegância nem espetáculo higienizado. As sequências de ação são diretas, incômodas, muitas vezes prolongadas além do confortável. Há erros de ritmo, decisões questionáveis de montagem e efeitos digitais irregulares, mas o conjunto mantém coerência interna. O filme não pede desculpas por ser agressivo nem tenta transformar isso em comentário metalinguístico. Existe um prazer quase primitivo nessa abordagem, alinhado à natureza do personagem, que funciona melhor do que o sarcasmo constante adotado por produções semelhantes.

Um universo que tropeça, mas anda

O roteiro é irregular, com personagens secundários subaproveitados e soluções apressadas, especialmente no último ato. Ainda assim, a narrativa segue adiante sem rupturas graves, sustentada por um arco central claro. Ao contrário de outras tentativas recentes da Sony, “Kraven: O Caçador” não parece constrangido por sua própria existência. Ele aceita seu tamanho, seus limites e sua proposta. Não redefine nada, mas também não implora aprovação.

O resultado é um filme que dificilmente será lembrado como marco, mas que se sustenta como entretenimento adulto, sombrio e surpreendentemente sério. Em um gênero cada vez mais anestesiado pelo excesso de piadas e autoconsciência, essa seriedade quase ingênua acaba sendo seu gesto mais provocador.

Filme:
Kraven: O Caçador

Diretor:

J.C. Chandor

Ano:
2024

Gênero:
Ação/Aventura/Suspense

Avaliação:

7/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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