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Com Paul Mescal e Jessie Buckley, o melhor filme que estreou no Brasil em 2026

Como um homem que viveu há mais de quatro séculos pode ser ainda tão influente? Sendo William Shakespeare (1564-1616), o inventor do humano, no feliz epíteto de Harold Bloom (1930-2019). O espírito buliçoso de Shakespeare infunde em indivíduos minimamente sagazes a necessidade de aproximar-se de sua produção, usufruir da perturbadora experiência de conhecê-lo melhor, assenhorear-se de suas angústias, testemunhar sua glória, saber-se um homem da mesma forma que ele, por mais que seu talento incomum acabasse por afastá-lo do resto dos mortais. Shakespeare esteve toda a vida acossado pelos altíssimos parâmetros que definia para si e para os que gozavam da felicidade ou fossem obrigados a disfarçar o incômodo de trabalhar com o Poeta dos Poetas, suportando seus acessos de raiva e seus dissabores, o retraimento diáfano que o perseguia e a circunscrita disposição para o erro e as hipócritas convenções sociais do início do século 17. O Bardo foi grande em tudo, inclusive — ou principalmente — na morte, como demonstra Chloé Zhao no assombroso “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”. Zhao adapta o romance homônimo da norte-irlandesa Maggie O’Farrell, colaboradora na preparação do roteiro, capturando o frescor onírico da história. Raramente na história da cultura pop alguém o conseguiu, e “Hamnet” tem o condão de, embora com romanceações meio vesanas, colocar abaixo uma parte da muralha que ainda isola o pai do teatro moderno do público leigo. Shakespeare sempre foi um autor popular. Na Londres elisabetana-jacobina de seu tempo, uma cidade caótica de trezentos mil habitantes, ele lotava um teatro com dois mil lugares. Chloé Zhao está quase lá.

O feitiço do Bardo

Ninguém saberá como foi que um certo tutor de latim para as crianças de Stratford-upon-Avon conheceu a filha mais velha de um abastado produtor rural de Shottery, a aproximadamente 1,5 quilômetro de Stratford, mas Zhao e O’Farrell fazem a melhor escolha para contar essa história. Como se atendendo a um chamado do destino, Shakespeare encontra Anne Hathaway (1556-1623) no celeiro da fazenda de seu pai, Richard, cuidando de seu falcão. Minutos antes, Anne, chamada de Agnes no filme, aparece dormindo entre as raízes de uma imensa árvore, e então a diretora junta os dois segmentos, recorrendo aqui e ali ao pássaro como a imagem de transcendência que O’Farrell elabora. Tudo o que nasce deve morrer, passando pela natureza em direção à eternidade, como diz a Rainha Gertrudes no ato 1º da cena 2ª do que será a peça mais famosa de todos os tempos, e existência e finitude — e em meio a elas o amor — é a tônica do relacionamento que há de nascer entre os dois. Agnes quer ouvir do futuro pretendente algo que a surpreenda. Shakespeare narra-lhe, não por acaso, o mito grego de Orfeu e Eurídice; ela gosta. E o resto é silêncio, mas não já. 

Ser ou não ser

Malgrado as tantas diferenças, os caminhos de Will, um homem cético, simpático ao catolicismo, mas que, para evitar algum aborrecimento, frequentava cultos anglicanos, e Agnes, uma aprendiz de feiticeira, se cruzam. Acontece o casamento, com uma noiva já barriguda, e Susanna (1583-1649), a primogênita interpretada por Bodhi Rae Breathnach, nasce dali a alguns meses. Contrariando o que se poderia esperar, preocupações eminentemente terrenas, sobre como ganhar a vida e o sustento de uma filha pequena tornam “Hamnet” ainda mais impactante, graças ao domínio que Jessie Buckley e Paul Mescal ostentam em tudo quanto respeita a Agnes e Shakespeare. Espera-se, claro, o nascimento dos gêmeos, Hamnet (1585-1596) e Judith (1585-1662), e espera-se, claro, a morte do primeiro. O trunfo de Zhao é a maneira como conduz o enredo a esse clímax funesto, deixando Buckley e Mescal livres para imprimir cores idílicas ao cotidiano dos Shakespeare. Quando Hamnet finalmente morre, portanto, o choque é avassalador. Cuidadosa, a diretora capta cada suspiro do garoto, que parece ter trocado de lugar com Judith, e vai sucumbindo aos avanços da peste bubônica que vitimara a irmã, a causa mais provável de seu decesso, apesar de em “A Pura Verdade” (2018), Kenneth Branagh mencionar afogamento. O luto é a matéria-prima do texto que Shakespeare buscava desde que havia tomado coragem para abandonar ele próprio o pai e estabelecer-se na corte, e Zhao até arrisca uma hipótese para o célebre “Ser ou não ser” do monólogo.

Consagrado

A metamorfose de tragédia em glória se dá no palco. Shakespeare vive o espírito do rei Hamlet, morto pelo irmão Cláudio, alvo da vingança do jovem príncipe, que herdou do pai o nome. A peça é um mimo que Zhao oferece à audiência, aludindo ao vigor do teatro, que nunca há de morrer e, pelo contrário, está cada vez mais presente e é cada vez mais necessário. Hamnet e Hamlet dividem a cena, numa solução poética e engenhosa da diretora, que pensa em dois irmãos para os papéis. Jacobi Jupe é o verdadeiro fantasma, que não aceita sua sorte e ronda a figura do ator que o encarna. Noah Jupe espelha o tormento de Hamnet, sentindo que um ritual mágico qualquer ganha forma ali, exatamente como o Bardo queria e continua a querer. Zhao não explica que “Hamlet” é também a versão shakespeariana para uma passagem da  mitologia nórdica, mas é impossível render-se à beleza ambivalente do longa, triste e esperançosa, essa, sim, a melhor realização artística de 2025, merecedora de cada uma das oito indicações ao Oscar 2026, entre as quais Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Atriz, para Jessie Buckley; e Melhor Roteiro Adaptado, para Zhao e O’Farrell.

A chinesa é quem tem o molho.

Filme:
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Diretor:

Chloé Zhao

Ano:
2025

Gênero:
Biografia/Drama

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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