Em “Querida Zoe”, Sadie Sink, Theo Rossi e Jessica Capshaw, sob direção de Gren Wells, conduzem a história de Tess DeNunzio, uma adolescente que tenta sobreviver ao peso da culpa após a morte da irmã mais nova, ao mesmo tempo em que precisa decidir onde e com quem consegue continuar vivendo sem desmoronar.
Tess vive em Pittsburgh com a mãe, Elly (Jessica Capshaw), o padrasto David (Justin Bartha) e a irmãzinha Em (Vivien Lyra Blair). A dinâmica familiar, no entanto, já não funciona como antes. Elly mergulha em um estado depressivo silencioso, David tenta manter a rotina de pé com disciplina quase burocrática, e Tess acaba ocupando um papel que não deveria ser dela: o de quem segura pequenas pontas do cotidiano enquanto ninguém consegue falar abertamente sobre o que aconteceu.
Ela participa das sessões de terapia familiar, mas percebe rapidamente que há uma espécie de bloqueio coletivo. A dor circula, mas não chega nela. É como se Tess estivesse presente apenas fisicamente, sem direito real de dividir o que sente. Essa exclusão não é declarada, mas se impõe no modo como os outros falam, evitam ou interrompem certos assuntos. O resultado é prático: ela perde espaço dentro da própria casa.
A fuga possível: o pai
Diante desse cenário, Tess toma uma decisão concreta: ir morar com o pai biológico, Nick (Theo Rossi), em Braddock. A mudança não é impulsiva, mas estratégica. Ela procura um ambiente onde não precise lidar com a mesma intensidade de lembranças que ocupam cada canto da casa da mãe.
Nick oferece algo que, à primeira vista, parece mais simples: tarefas, rotina e uma presença menos emocionalmente densa. Ele cria cães e envolve Tess nesse trabalho, dando a ela uma função clara, algo que depende diretamente de suas ações. Cuidar de um filhote, por exemplo, não exige explicações nem revisita o passado o tempo todo. É um tipo de ocupação que organiza o dia e, por alguns momentos, suspende o peso da culpa.
Mas essa nova casa também tem suas regras. Nick controla o ambiente, define limites e observa de perto com quem a filha interage. Ele protege, mas também restringe, e Tess percebe que sua autonomia continua sendo negociada.
Um encontro que complica tudo
É nesse contexto que surge Jimmy Freeze (Kweku Collins), o vizinho que aparece com uma mistura de simpatia e insistência. Ele se aproxima dizendo conhecer Nick, o que já cria um vínculo indireto. Tess aceita conversar, testa o terreno, e logo os encontros passam a acontecer com mais frequência, e, claro, com mais discrição do que Nick gostaria.
O interesse entre os dois cresce de forma natural, mas nunca totalmente confortável. Jimmy traz consigo uma história complicada, marcada por conflitos familiares e passagens por instituições correcionais. Ele não esconde isso, o que, curiosamente, aproxima Tess em vez de afastá-la. Há ali uma identificação silenciosa: ambos tentam lidar com passados difíceis sem saber exatamente como.
Nick intervém quando percebe essa aproximação, deixando claro que não aprova a amizade. Tess, por sua vez, não recua. Ela apenas muda a forma de agir. Os encontros passam a acontecer escondidos, geralmente à noite, criando uma rotina paralela que exige cálculo constante. Cada decisão dela agora carrega um risco imediato: ser descoberta e perder o pouco de estabilidade que encontrou.
Trabalho, rotina e pequenas fugas
Quando o verão chega, Jimmy oferece a Tess um emprego no parque de diversões Kennywood. Ela aceita. Trabalhar ali não é apenas uma questão de dinheiro, mas de organização. O parque vira um espaço intermediário entre os dois mundos dela: longe da tensão da casa do pai e distante das lembranças mais pesadas da casa da mãe.
A rotina de trabalho traz um alívio concreto. Horários, tarefas, colegas, tudo isso ajuda a construir uma sensação de normalidade, ainda que provisória. Tess começa a se mover com mais autonomia, encontrando em Jimmy não só um interesse amoroso, mas também um parceiro nesse pequeno sistema que ela mesma cria para sobreviver.
Enquanto isso, o contato com Elly não é completamente rompido. As duas passam a se falar por telefone, em conversas semanais que tentam reconstruir algum tipo de vínculo. Não são diálogos perfeitos, nem resolvem o passado, mas funcionam como uma ponte mínima. Elly admite medo de perder a filha; Tess promete que isso não vai acontecer. É uma promessa feita mais por necessidade do que por certeza.
O que permanece escondido
Nem tudo, porém, se sustenta apenas com rotina e boa vontade. Tess começa a perceber sinais de que a vida de Nick envolve mais do que aparenta. Movimentos estranhos, dinheiro em circulação, visitas inesperadas — elementos que ela inicialmente ignora, mas que aos poucos se tornam difíceis de contornar.
Esse novo conhecimento altera a posição dela dentro da casa. O que antes parecia um refúgio começa a apresentar fissuras. Tess tenta confrontar o pai, busca uma explicação, mas não encontra uma mudança real de comportamento. Nick mantém suas atividades, como se a presença da filha não exigisse ajustes.
Ao mesmo tempo, o relacionamento com Jimmy também ganha novas camadas, deixando de ser apenas um espaço de escape emocional. Tess percebe que está inserida em uma rede de decisões que não controla totalmente, o que reduz sua margem de escolha.
No fim, “Querida Zoe” não se organiza como uma história de respostas fáceis. Ele acompanha Tess enquanto ela testa caminhos, recua, insiste e tenta encontrar um lugar onde consiga existir com menos peso. Cada escolha abre uma possibilidade, mas também impõe um custo imediato. E é justamente nesse equilíbrio instável que o filme encontra sua força: não em resolver o luto, mas em mostrar como se continua, mesmo quando nada parece completamente resolvido.
Filme:
Querida Zoe
Diretor:
Gren Wells
Ano:
2022
Gênero:
Drama/Mistério/Romance
Avaliação:
8/10
1
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★

