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Com Anthony Hopkins, filme no Prime Video adapta peça filosófica que vai te deixar pensando por dias

O encontro imaginado entre Sigmund Freud e C. S. Lewis em Londres, no dia em que o Reino Unido declara guerra à Alemanha, funciona em “A Última Sessão de Freud” como uma espécie de laboratório ético improvisado. A casa do psicanalista, já marcada pela dor de um câncer que corrói cada gesto e pelas doses de morfina que o mantêm desperto, vira palco de uma conversa que não busca consenso algum. Freud, interpretado por Anthony Hopkins com um rigor quase clínico, recebe Lewis, vivido por Matthew Goode, ainda carregando as cicatrizes da Primeira Guerra e uma fé reencontrada que tenta justificar para si mesmo. O encontro não pretende a vitória intelectual; o que se instala é um duelo de convicções pressionado pela urgência do tempo, pelo som das sirenes antiaéreas e pela consciência de que o mundo, ali fora, está à beira do colapso.

A presença de Anna, interpretada por Liv Lisa Fries, altera o ar da casa de um jeito que a própria narrativa parece hesitar em admitir. Filha dedicada, mas sufocada pelo peso de ser depositária das projeções paternas, ela atravessa o dia dividida entre o dever de cuidar e a inquietação de assumir, para si e para Freud, o vínculo afetivo com Dorothy Burlingham, vivida por Jodi Balfour. Essa relação, tratada com uma combinação de delicadeza e tensão, funciona como contraponto ao embate entre seu pai e Lewis: enquanto eles constroem argumentos, Anna tenta construir uma vida que não caiba em teorias alheias.

A estrutura do filme aposta no movimento constante entre presente e memória. Freud revisita a Viena perdida, os anos de juventude e a sombra crescente do antissemitismo, enquanto Lewis volta às trincheiras e às marcas emocionais deixadas por Paddy Moore, cuja lembrança se mistura à figura de Janie Moore, interpretada por Orla Brady, com quem ele mantém um vínculo que desafia classificações simples. Esses deslocamentos temporais pretendem expandir o debate central, mas também revelam fragilidades: nem sempre os recuos acrescentam densidade ao diálogo; por vezes parecem tentativas de ampliação visual que enfraquecem o vigor da conversa principal.

Ainda assim, há algo fascinante na fricção entre as duas mentes. Freud recusa qualquer transcendência, guiado por uma lucidez que o corpo doente torna ainda mais cortante. Lewis insiste na possibilidade de sentido para além da matéria, mesmo que suas próprias memórias desmintam parte dessa convicção. O filme acompanha esse jogo com uma cadência que oscila entre provocação e melancolia, deixando que cada argumento ecoe sem pressa. Não há respostas, apenas a constatação de que a experiência humana se organiza mais por contradições do que por certezas. Hopkins domina essas nuances: cada silêncio dele pesa mais do que um argumento extenso.

No entanto, a narrativa sofre quando tenta ampliar demais suas frentes dramáticas. Os flashbacks de Lewis nem sempre dialogam com o debate de fundo; a trajetória de Anna, embora interessante, às vezes parece deslocada diante da força dos confrontos filosóficos. O resultado é um filme que alterna momentos de grande intensidade com instantes em que se percebe o esforço para preencher lacunas que talvez nem precisassem existir. A sensação é a de acompanhar uma conversa que, quando se mantém afiada, ilumina zonas profundas da relação entre crença, trauma e finitude, mas que em alguns trechos se dispersa.

Mesmo com esses tropeços, “A Última Sessão de Freud” sustenta uma inquietação legítima. O texto encena um mundo que caminha para a guerra enquanto dois homens, sentados numa sala tomada pelo cheiro de remédios, tentam compreender aquilo que mais escapa à razão. A força maior do filme não está nas posições defendidas, mas nos intervalos em que ambos parecem reconhecer que viver é lidar com lacunas que nenhuma teoria resolve. A narrativa fecha esse encontro deixando no ar a impressão de que, diante do medo e da fragilidade, a distinção entre crer ou não crer perde, por um instante, a rigidez que tantos defendem com fervor. Essa suspensão diz mais sobre os personagens do que qualquer vitória intelectual poderia sugerir.

Filme:
A Última Sessão de Freud

Diretor:

Matt Brown

Ano:
2023

Gênero:
Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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