| Quando uma molinsia-amaznica (Poecilia formosa) diz que no precisa de um macho, acredite nela. Cada um desses peixinhos, encontrados em riachos de gua doce no Mxico e no sul do Texas, fmea e se reproduz exclusivamente de forma assexuada, dando luz clones de si mesma. Por mais invejvel que isso seja, o peixe apresenta um paradoxo evolutivo. De acordo com a teoria da evoluo, pelo menos alguma reproduo sexuada necessria para manter uma espcie geneticamente diversa e, portanto, menos propensa extino. Ento, como esses peixes conseguiram prosperar por milnios? |
De acordo com um novo estudo publicado na revista Nature na semana passada, as molinsias-amaznicas no sofreram os efeitos negativos previstos da e partenognese. Alm disso, parecem ter uma arma secreta para neutralizar as desvantagens da assexualidade. As descobertas lanam nova luz sobre como os molinsias-amaznicas e outras espcies assexuadas evitam a extino.
As molinsias-amaznicas so peixes pequenos, de barbatanas arredondadas, no maiores que um polegar. Batizados em homenagem raa guerreira da mitologia grega, esses peixes surgiram h cerca de 100.000 anos, depois que uma fmea de molinsia-atlntica se apaixonou por um macho de molinsia-vela.
Enquanto acasalamentos entre membros de espcies diferentes geralmente produzem descendentes infrteis, este deu origem a uma espcie capaz de gerar cpias idnticas de si mesma.
Esses peixes precisam acasalar com pelo menos 4 machos de outras espcies para desencadear sua autoclonagem, um processo conhecido como ginognese, mas seus descendentes nunca carregam o DNA desses machos.
Quando os molinsias-amaznicas foram descobertos em 1932, elas eram os primeiros vertebrados conhecidos por serem capazes de reproduo assexuada. Embora dezenas de vertebrados tenham sido descobertos posteriormente com a mesma capacidade, incluindo drages-de-komodo e tubares-martelo, os molinsias amaznicas so um dos poucos vertebrados a faz-lo exclusivamente.
Como elas conseguiram sobreviver foi um mistrio por muito tempo. De acordo com os modelos atuais de como as mutaes genticas se acumulam ao longo do tempo na reproduo assexuada, os molinsias-amaznicas: – “…ldeveriam ter sido extintas aps cerca de 10.000 anos”, disse Edward Ricemeyer, bilogo computacional da Universidade Ludwig Maximilian de Munique e coautor do novo estudo. – “O fato delas existirem h muito mais tempo do que isso apresenta esse paradoxo.”
Edward afirma que os cientistas ainda no sabem como espcies assexuadas, especialmente as complexas como os vertebrados, no acumulam mutaes prejudiciais, visto que a seleo natural no as elimina constantemente.
Para descobrir, ele e seus colegas examinaram os genomas de vrias molinsias e descobriram que elas vm realizando sua prpria manuteno gentica h dezenas de milhares de anos.
De acordo com suas anlises genticas, mutaes prejudiciais surgem em molinsias-amaznicas com a mesma frequncia que em suas primas de reproduo sexuada. No entanto, as molinsias parecem utilizar um processo gentico pouco conhecido para garantir que tais mutaes sejam eliminadas ou corrigidas.
Esse processo, conhecido como converso gnica, funciona substituindo um segmento de DNA cromossmico por uma sequncia correspondente copiada de uma sequncia semelhante em outro cromossomo. Os mamferos, incluindo os humanos, possuem essa capacidade, principalmente para reparar danos ao DNA.
Mas, para os molinsias amaznicos, a converso gnica parece desempenhar o mesmo papel que um fenmeno chamado recombinao por cruzamento, o mtodo pelo qual os genes da me e do pai so misturados em espcies com reproduo sexuada.
A converso gnica, assim como a recombinao por cruzamento, cria variabilidade gentica nas molinsias-amaznicas sobre a qual a seleo natural pode atuar, resultando na remoo e reparo de mutaes indesejveis.
Os cientistas suspeitavam que espcies assexuadas pudessem ter um mecanismo de defesa desse tipo, mas esta a primeira vez que isso realmente acontece.
O que Edward e seus colegas descobriram nos genomas das molinsias-amaznicas provavelmente o que est acontecendo em outras espcies assexuadas], elas s ainda no demonstraram.
Eu gostaria de ver estudos semelhantes em outras espcies assexuadas. Seria interessante ver o quo disseminado isso em outros animais, plantas e fungos, e tambm se est ocorrendo em eucariotos microbianos ou protistas.
No est claro se todas as espcies assexuadas utilizam ferramentas genticas semelhantes, e Edward espera que pesquisas futuras respondam a essa questo.
Das milhares de espcies conhecidas por se reproduzirem por clonagem, os cientistas realizaram estudos detalhados apenas de algumas poucas, em nvel genmico.
– “Compreender essas foras genticas pode ter muitas aplicaes”, disse Edward. _ Desde a modificao gentica de plantaes at o tratamento de doenas como o cncer, uma doena na qual uma linhagem clonal de clulas acumula mutaes que a fazem crescer e superar as linhagens no mutadas.”
Embora os molinsias-amaznicas sejam fascinantes por si s, sua capacidade de clonagem pode nos ensinar algo sobre o combate a uma importante ameaa sade humana.
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