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Cultura

Chuva sem acidez de serotonina

Chuva sem acidez de serotonina

A Bula entrou numa nova fase, vê-se logo na página inicial. Layout renovado. Ou escrever “layout” entrega a idade deste que vos traz estas mal digitadas? Deve ser “interface”. Interface, fica sendo interface.

O seu — nosso — editor, porém, está na formatação antiga (“formatação”? Tanto faz, tanto faz…). Carlos Willian pede-me textos de manhã, eu desconverso; cobra-me artigos à tarde, saio à francesa; já à noite, bebemos algum vinho e se ele esquece disso tudo. Chega o dia seguinte, contudo, e o WhatsApp apita novamente. Não faço promessas de privações na Quaresma por já as sofrer, eis um fato.

O problema, amigo Carlos, é que também ando precisando de layout novo. Ou interface renovado, vá saber (renovada? Não sei o gênero da palavra). Nada externo, aviso desde já: procedimento estético para mim, agora, somente a reencarnação. Penso mais numa mudança interna, alguma rearrumação neuronal, coisas desse tipo. Que o coração não seja cuidado por um geólogo, digamos também assim: quero ver aquele copo d’água meio cheio, nunca envenen…, opa, meio vazio.

Não se assustem com o tom, nem sequer será preciso tirar a garotada da sala para o que virá a seguir — não vim aqui me lamuriar (na verdade, vim…) ou tomar ares de… como se diz? Coach. Isso: coach. O que faço neste exato momento é um nariz de cera (o Professor Google explica a expressão, distintos três leitores) para descobrir, enquanto escrevo, o que exatamente escrever.

Vejamos. A vida é bela, sim, mas tem nuances de cinza em alguns dias. Ou em muitos dias. Nossas máscaras de “não estou nem aí” caem em certos momentos, e o processo civilizatório que nos trouxe até aqui esconde impulsos homicidas. Felicidade foi embora e a saudade no meu peito ainda mora, seu Lupicínio. Calma, calma: há a indústria farmacêutica e, claro, a literatura sempre nos socorre, obrigado, Senhor. Vocês sabem, sei que sabem. Querem a confirmação? Eu canto porque o momento existe. O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas. Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento. Colombo, fecha a porta dos teus mares! Assim deve ter sido após o nascimento da luz elementar. Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte. Mientras más honda la herida, és mi canto más hermoso. In a minute there is time for decisions and revisions which a minute will reverse. Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão? Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá. Apaixonei-me de ti, em um dia longínquo, Átis. Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate. Para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Querida, ao pé do leito derradeiro. Muito bem, disse Cândido, mas é preciso cultivar nosso jardim. Tu, ontem, na dança que cansa. Abril é o mais cruel dos meses. Foi um verão de glicínias. Conheço-o: é o Esteves sem metafísica. Se a Bulgária existe, então a cidade de Sófia terá que fatalmente existir. O sol brilhou, não tendo alternativa, por nada de novo. Mas onde estais, neves d’outrora? Todas as famílias felizes se parecem. Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Queimar era um prazer. Mi infancia son recuerdos de um patio de Sevilla. Sopra o vento, convém tentar viver. O passado é um país estrangeiro. Sobre esse sentimento desconhecido cujo tédio, cuja doçura me inquietam, hesito em usar o nome, o belo e profundo nome de tristeza. É que os bárbaros chegam hoje. Olhem bem estes sapatos, e olhai os vossos também. Chamai-me Ismael. This blessed plot, this earth, this realm, this England. Todas as crianças crescem, exceto uma. As curvas dos teus lábios reescrevem a história. Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados. No Pátio do Colégio afundem o meu coração paulistano. America, I’ve given you all and I’m nothing. Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Uma parte de mim é multidão. Um galo sozinho não tece uma manhã. Reader, I married him. Ai, palavras, ai palavras, que estranha potência, a vossa! Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio. Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta. Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura. Sou filho das selvas, nas selvas cresci. Quando Ismália enlouqueceu. Reconheço os sinais da antiga chama. I celebrate myself, and sing myself, and what I assume you shall assume, for every atom belonging to me as good belongs to you. Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo. E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas. Conheço rios: conheço rios tão antigos quanto o mundo e mais velhos que o fluxo de sangue humano nas veias humanas. Do not go gentle into that good night. Sucede que me canso de ser hombre. Sôbolos rios que vão por Babylonia, me achei. Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta. Amava o Grande Irmão. Não vi em minha vida a formosura. Eles atiram na branca primeiro. E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado. Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito. Falhamos a vida, menino! Eran las cinco en todos los relojes. Sou um palhaço, respondi eu, e coleciono instantes.

E assim é. Contudo, todavia e porém, li, viajei, amei e continuo aqui, demasiado humano. Todos nós, presumo. Talvez um lado coach não seja má ideia, portanto. Tenho escrito nesta revista sobre os mais variados temas, despejando certezas que, alguém já disse, só os arrogantes costumam ter — apreciei o elogio; ocorre que hoje quero desfiar algumas dúvidas. Coaches têm dúvidas? Ou antes: quero escrever sem qualquer pretensão de certeza ou profundidade. Vejamos.

É só a tempestade dentro de mim, esta chuva sem acidez de serotonina que cai incessante, ou percebo no ar uma força qualquer que dilui certezas e sufoca iniciativas? Há uma certa tristeza que paira por aí, como aquele sentimento indefinido que nos ronda na virada do ano? Amigos me confessam que têm estado inermes, incapazes de ficar parados e incapazes de fazer qualquer coisa, e também, como escreveu o grande Rubem Braga, aquele amigo que nunca conheci pessoalmente, gastando-se como se gasta um cigarro. E sim, repito temas que se acumulam em mim.

Há guerra, há mortes, há nossas vidinhas correndo — nada de novo na frente ocidental, Herr Remarque. Perdi um amigo outro dia — tenho perdido muitos amigos, o celular até já se conecta imediatamente com a senha do wi-fi em cemitérios. Creio que ele — o amigo, não o celular — poderia ter dito, como no poema, que a indesejada das gentes encontrou lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta. Seu dia foi bom, e pôde a noite, então, descer com os seus sortilégios. Sua sobriedade mexeu com nós todos, deixando-nos um travo de inveja de sua dignidade final, inveja tão grande quanto à que sentimos de sua vida. Deixou também um sentimento de perda de um camarada cujas proezas, reais e imaginárias, tanto admirávamos.

É o ciclo da vida. Claro, claro, nossos nossos problemas costumeiros continuam nas manchetes. E aos grandes fatos noticiados pela imprensa somam-se as nossas tragédias cotidianas, como essa partida de um amigo. Um gesto que não é entendido, outro que é esperado e não acontece. Um amigo que sofre. Uma lembrança de uma pequena alegria ocorrida há muito, muito tempo, e que vem à memória, rápida e fugazmente, na hora do engarrafamento. As pequenas maldades que sofremos — e cometemos! — todos os dias; as esperanças que outros depositam em nós e que não são correspondidas. Um livro que desperta uma mistura de tristeza e nostalgia; uma música qualquer que queremos ouvir novamente. O menino que nos pede dinheiro na rua e para quem damos algumas moedas, com vergonha do medo que nos invade. Um prazo que não se cumpre, uma promessa que se esquece. Os problemas que não se resolvem, outros que surgem. A enorme falta de comunicação em um mundo repleto de signos visuais e sonoros.

Estou sendo coach de coveiro de ilusões, ao que parece. Não era a minha intenção. Mudemos o rumo desta palestra desmotivacional ou desta desarmonização cerebral. Rubem Braga, de novo ele, quis, em certo momento de desencanto, escrever uma história tão engraçada “que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera” ela chegasse. Ela deveria ser “tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria (…) e que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história”. Talvez eu também?

Pensei, refleti, ponderei. Não eu (esta minha propensão para a cova de ilusões sempre retorna…). Produto perfeito do meu tempo, confesso que reconheço o medo, a nostalgia e a dor, mas escrevo apenas, egoísta que sou, para me livrar de parte do peso que me encurva os ombros. Se as sinapses falham, despejo aqui parte disso tudo. E bem sei: daqui a alguns dias, quando estiver flanando mais uma vez nos lugares de sempre, o peso voltará e eu talvez fique novamente chocado com o pedinte de rua, espantado com o novo atentado terrorista, surpreso com a miséria alheia; aí, então, receberei a tristeza que me invadir como uma velha conhecida, ciente de que a visita virá de tempos em tempos. Assim sou, assim somos, não para nosso espanto e vergonha — mas por nossa culpa, corrupção e vileza (Braga, Braga, furto-o sem pudores).

Por fim, para que não digam que este texto aqui aporta em desacordo com a filosofia da nova Bula, proclamo a todos: estou igualmente dissonante de mim mesmo. Ruim para mim, pior para os leitores — troquei uma certa objetividade (pouco certeira, é verdade) por lirismo de péssima categoria. O artigo saiu quase obituário de utopias — cartas à redação com reclamações.

Ah, sim: “No meio da caminhada da nossa vida / me vi numa floresta escura, / pois a via reta estava perdida”. Adiante e até a próxima cobrança de texto pelo editor — florestas escuras têm clareiras, afinal. Sopra o vento.



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