Dirigido por Tom Harper e escrito por Steven Knight, “Peaky Blinders: O Homem Imortal” recoloca Tommy Shelby no centro da história com Cillian Murphy, Barry Keoghan, Rebecca Ferguson e Tim Roth ao redor dele. O retorno não tem nada de celebratório. Em Birmingham, em 1940, sob a pressão da Segunda Guerra, Tommy surge longe da cidade, em exílio autoimposto, enquanto o nome Shelby continua a circular num submundo atravessado por conspiração política e libras falsas ligadas ao esforço nazista. A premissa tem lastro porque esse reencontro com o personagem já começa contaminado por ausência, atraso e perda de controle.
Birmingham reaparece menos como lembrança do que como espaço em disputa, tomado por outras lealdades, outros negócios e outra velocidade. A cidade o puxa de volta. Ada Shelby ajuda a tirar Tommy do isolamento e a recolocá-lo diante do que deixou para trás, enquanto a imagem do homem sozinho no campo, escrevendo sobre o passado, logo encontra a rua em que Duke Shelby já ocupa posição de comando. Dessa fricção entre recolhimento e retorno nasce a melhor tensão do longa, porque a volta não significa retomada tranquila, mas confronto direto com uma família que aprendeu a seguir sem ele.
Duke não entra em cena apenas como herdeiro de sobrenome, mas como o ponto em que “Peaky Blinders: O Homem Imortal” localiza seu conflito mais evidente, o de um pai que retorna quando o filho já sabe mandar. É aí que o filme aperta. A aproximação de Duke com Beckett, agente pró-nazista ligado ao esquema de dinheiro falso, empurra os Shelby para um jogo mais amplo, em que crime de rua, política de guerra e sucessão doméstica passam a se misturar. Quando Tommy pisa outra vez em Birmingham, a disputa já não é só pelo comando da gangue, mas também pelo estrago que o nome Shelby ainda pode produzir.
Rebecca Ferguson entra nesse círculo como Kaulo, ligada ao passado romani de Tommy e também à órbita de Duke, e sua presença reforça a ideia de que esse protagonista jamais consegue separar o presente dos fantasmas que carrega. O passado volta junto. Kaulo pesa menos como mistério e mais como lembrança viva de uma origem que o personagem nunca conseguiu abandonar de fato. Ao mesmo tempo, a relação entre pai e filho espalha pelo longa um atrito contínuo entre campo e cidade, memória e impulso, distância e comando, e Harper filma essas passagens com solenidade, mas sem perder de vista o terreno áspero em que seus personagens se movem.
Essa solenidade reaparece nas caminhadas em câmera lenta, no retorno de “Red Right Hand” e na entrada de Tommy em Birmingham com ares de figura mítica chamada de volta ao próprio território. O ritual permanece. Em vários momentos, o longa parece empenhado em reafirmar sua origem e seus sinais mais conhecidos, sobretudo porque a ausência de Arthur Shelby altera o peso afetivo dos reencontros e das velhas alianças. Ainda assim, quando essa gramática visual se junta ao cansaço de Tommy, à cidade em estado de guerra e à ameaça da conspiração nazista, o estilo ganha corpo e deixa de ser apenas marca reconhecível.
Tommy segue assombrado por perdas passadas, por lembranças de guerra e pelos próprios demônios, e “Peaky Blinders: O Homem Imortal” encontra sua melhor medida quando não tenta disfarçar esse desgaste. Nada aqui soa leve. O filme cresce menos na repetição de seus sinais tradicionais e mais quando encosta o personagem em três frentes muito concretas, o exílio que o esvaziou, Duke que assumiu a dianteira e Beckett que amplia o risco para além de Birmingham. Nesses trechos, Murphy sustenta a história com uma secura que combina com o ambiente e com a época, até a imagem final de um homem de casaco escuro entrando na fumaça da cidade, de volta à rua.
Filme:
Peaky Blinders: O Homem Imortal
Diretor:
Tom Harper
Ano:
2026
Gênero:
Crime/Drama/História
Avaliação:
9/10
1
1
Amanda Silva
★★★★★★★★★★

