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Chegou à Netflix: o filme que parece uma mistura de “Mad Max: Estrada da Fúria” e “Jogos Vorazes

A abertura coloca “Máquinas Mortais” em movimento com uma Londres motorizada que caça recursos e impõe lei pela força. No meio desse caos, Tom, vivido por Robert Sheehan, age no impulso, atravessa uma área proibida e é jogado para fora da cidade. A cena não oferece almofada para a queda, tem chão duro, braço reclamando e a obrigação de levantar antes que alguém o reconheça. Tom improvisa com o que tem no bolso, escolhe o que dá para carregar sem travar a corrida e mede o risco de ficar imóvel por alguns segundos para não chamar atenção. Sheehan dá ao personagem um nervosismo de fala e gesto, como quem tenta ganhar tempo falando enquanto o corpo pede fuga.

Quando a narrativa cola em Tom fora dos muros móveis, “Máquinas Mortais” transforma deslocamento em problema de toda hora. Cada trecho do percurso pede ações pequenas e caras, atravessar área aberta, esperar a ronda virar a esquina, pedir direção a desconhecidos e aceitar trocas que parecem ruins, mas liberam um portão. O mundo sobre rodas vira obstáculo físico, subir, escapar e não ser visto exigem coordenação e tempo, e a conta chega no peito, no passo e na falta de descanso. Em alguns momentos, o filme encurta o intervalo entre uma situação e outra e apressa certas alianças, mas a linha principal não se perde porque a dupla precisa seguir andando, mesmo quando a respiração já está curta.

Hester, interpretada por Hera Hilmar, dá ao filme seu centro mais firme porque decide e executa sem ornamentar. Ela escolhe rota, corta caminho, recua para não gastar energia à toa e volta quando enxerga vantagem, sempre medindo o que dá para arriscar com o que ainda falta percorrer. Hilmar sustenta a personagem com respostas secas e olhar que varre saída antes de aceitar conversa, e isso deixa claro por que confiança custa caro para ela. O preço dessa disciplina aparece no corpo e no relógio, ficar alguns minutos a mais num lugar pode significar perder a janela de fuga, e a punição vira horas extras de caminhada. Ao lado de Tom, Hester empurra as escolhas para o prático, contar suprimento, observar o entorno e decidir rápido para não ficar encurralado.

Christian Rivers, estreando na direção de longa, cresce quando recusa o borrão e organiza as cenas grandes com leitura clara. As perseguições costumam ser compreensíveis, dá para saber qual passagem foi escolhida, onde está a saída e qual obstáculo travou a fuga, e isso muda a sensação do público, porque o risco não fica abstrato, ele está no corredor estreito, na escada improvisada, no segundo que falta para alguém aparecer. A montagem rende mais quando deixa a gente ver a escolha do caminho e o problema que bloqueia a rota, em vez de cortar só para o estrondo. O filme também acerta quando reduz heroísmo e aumenta esforço, correr até o ar falhar, subir com as mãos escorregando, parar para escutar, esconder-se e esperar o silêncio voltar. Cada pausa tem um custo, parar demais vira perigo, correr demais quebra as pernas.

Barganha por abrigo e passagem

A regra do caminho é bolso e sucata, quem tem rodas e dentes leva, quem perde segue a pé com o que couber nas mãos. A ideia de Cidades Tração vira rotina de caça e retirada, e isso dá peso às decisões, errar uma rua pode significar voltar para a fila do “por favor” e do “quanto você paga”, com gente controlando acesso e cobrando trabalho em troca de abrigo. No roteiro assinado por Peter Jackson e Philippa Boyens, o melhor está quando a negociação tem preço visível, entrar num lugar exige serviço, seguir adiante exige ajuda, e ajuda exige confiança que ninguém quer dar. O ponto frágil aparece quando a história sai da rua e entra em conversa rápida com nome, objetivo e promessa, porque ali a urgência perde corpo, ninguém sua, ninguém espera, ninguém paga em tempo, e a cena passa sem deixar marca.

O elenco sustenta o tom de aventura séria, com humor curto e nervoso quando dá para respirar por um instante. Hugo Weaving entra com presença firme e um tipo de autoridade que ocupa espaço sem pressa, fala como quem já controla a sala e obriga os outros a ajustar postura. Essa energia ajuda a manter o conflito vivo sem depender de discurso longo, basta o jeito de entrar, olhar e mandar para estabelecer hierarquia. A narrativa também varia parceiros e obstáculos, e cada encontro tem cara de negociação, informação em troca de abrigo, abrigo em troca de trabalho, trabalho em troca de passagem. Essa lógica segura o caminho porque ninguém atravessa um portão, consegue um atalho ou ganha alguns minutos sem oferecer algo em troca, e quase sempre esse algo é esforço, tempo ou a obrigação de voltar depois.

“Máquinas Mortais” fica mais forte quando investe em gente em movimento, decisão tomada com pouco tempo e consequência que cobra energia e coordenação. Quando tenta carregar muitas regras e muitos objetivos ao mesmo tempo, a história perde aderência e vira corrida para encaixar peças, com conversas que passam rápido demais. Ainda assim, quando retorna ao corpo a corpo da jornada, com passos apressados, mão segurando alça e olho buscando rota, o filme volta a respirar no lugar certo. A sessão termina do jeito que essa aventura pede, ajustar a correia, apertar o passo, olhar para o lado uma última vez e seguir antes que a próxima roda chegue perto demais.

Filme:
Máquinas Mortais

Diretor:

Christian Rivers

Ano:
2018

Gênero:
Ação/Aventura/Fantasia/Ficção Científica/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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