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Chegou à Netflix e é daqueles romances que roubam sua noite sem barulho

No salão do casamento, com mesas cheias e gente atravessando o bar, Jane cruza o espaço, decide falar com Will e perde alguns minutos em conversa que o filme não encurta. A escolha tira os dois do centro do evento e já cria uma consequência prática: o relógio da festa anda enquanto eles se afastam, e a narrativa passa a depender do quanto aquela troca aguenta antes de alguém sentir falta deles.

O caminho para o vestiário reduz o ruído e fecha o quadro em espelhos, cabides e uma porta que pode abrir a qualquer momento. Ali, “Which Brings Me to You” faz Jane interromper o avanço físico e puxar a conversa para outro terreno, o que prende os dois no mesmo lugar por mais tempo. Lucy Hale segura a fala, escolhe o que conta e o que engole, e essa triagem cobra energia e estica a cena, sem a ajuda de uma ação externa para empurrar o encontro adiante.

A porta e o corredor

Will aceita a regra e o roteiro passa a alternar confissões com pequenos cortes para corredores e áreas de serviço da casa de festas, sempre perto o bastante para lembrar que o casamento continua. Nat Wolff narra episódios do passado encostado na parede ou sentado num banco, e o corpo parado vira marcador de duração. Cada bloco de fala ocupa minutos inteiros e adia o retorno ao salão, criando uma espera clara para os personagens e para quem assiste.

A porta do vestiário volta como ponto de controle. Ouvir passos, fechar a maçaneta e olhar para o corredor se repetem, e cada repetição tem efeito direto no tempo da cena. Quando o ruído do lado de fora aumenta, alguém decide calar ou continuar falando, e esse ajuste força cortes curtos ou prolonga o mesmo enquadramento, com a sensação de que a festa corre paralela sem eles.

Os relatos de Jane citam mesa de trabalho, apartamento e encontros anteriores, mas ficam no campo da fala, sem encenação desses lugares. A opção encurta deslocamentos e mantém o filme preso ao mesmo conjunto de sala, corredor e porta, o que reduz mudanças de cenário durante minutos seguidos. Na prática, as histórias ocupam mais tempo do que situações novas, e a sessão vira um vai-e-volta de fala que segura o público no mesmo lugar por longos trechos.

A câmera na mão

Will traz a câmera para perto e, em alguns momentos, pega e larga o equipamento como quem tenta marcar pausa. O objeto lembra que há prazos e tarefas fora dali, mesmo com o casamento em andamento a poucos passos. A câmera fica sem uso imediato, mas permanece no quadro como um lembrete físico de trabalho acumulado, enquanto a conversa continua consumindo tempo.

John Gallagher Jr. aparece ligado ao evento, cruzando o salão e os corredores, e reintroduz a rotina da festa com gente se chamando e cadeiras sendo arrastadas. Quando ele entra no campo de proximidade, Jane e Will precisam recalcular o tom, baixar a voz ou mudar de assunto. Essas decisões pequenas reorganizam a conversa e estendem a permanência fora do salão, com mais minutos gastos para manter o que está sendo dito longe de ouvidos alheios.

A montagem prefere cortes diretos e retorna a posições parecidas no vestiário e numa escada próxima. Subir e descer alguns degraus vira saída rápida quando alguém precisa respirar fora do espaço fechado, e o movimento curto ajuda a dividir a sessão em partes. É pouco deslocamento, mas já muda o ritmo do corpo e dá ao espectador um marcador simples de passagem de tempo.

Com o avanço da sessão, o filme mantém falar, ouvir e responder como tarefas centrais. Em vez de ações grandes, a câmera acompanha decisões miúdas, como retomar um assunto, interromper uma frase ou esperar o outro terminar, sempre com a consequência de alongar ou encurtar o momento. Cada novo bloco ocupa mais minutos e deixa o casamento ao fundo, com o som do salão lembrando o tempo que está passando.

Perto do encerramento, o filme volta ao salão, com mesas sendo recolhidas e convidados se despedindo, e a imagem informa que a festa andou enquanto a conversa seguia em outro cômodo. Jane e Will atravessam o mesmo espaço por onde tinham saído, agora com menos pressa e mais silêncio entre uma fala e outra. A sequência termina ali, no salão já esvaziando, com o deslocamento curto entre mesas e a espera que se alongou até a última cadeira.

A comédia romântica dirigida por Peter Hutchings começa num encontro que para no meio e troca a sequência típica do gênero por uma conversa longa em espaço apertado. Jane, jornalista freelancer, e Will, fotógrafo, saem do salão e passam a medir palavras enquanto a festa segue do lado de fora. O filme se apoia em idas e voltas entre ambientes próximos, no barulho do evento e na chance constante de alguém bater na porta. Sem depender de viradas, a sessão aposta em relatos sucessivos e em reações imediatas, o que alonga cenas, exige fôlego do público e muda a noção de passagem de tempo dentro do próprio casamento.



Fonte

Redação

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