Centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas da Alemanha nesta segunda-feira (16) para o tradicional “Rosenmontag”, ponto alto do carnaval no país. Em cidades como Düsseldorf e Colônia, os desfiles mantiveram a marca registrada da festa: humor ácido, crítica política direta e esculturas gigantes de papel machê retratando líderes mundiais.
Neste ano, os carros alegóricos ironizaram figuras como o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o chanceler alemão Friedrich Merz. O financista Jeffrey Epstein, acusado de crimes sexuais, também apareceu como personagem em uma das alegorias.
Em Düsseldorf, uma escultura mostrou Epstein com as frases “Todos protegem o agressor” e “Todos ignoram as vítimas”.
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Já em Colônia, Trump foi representado diante de um espelho, sorrindo, com marcas de batom nas nádegas. Acima delas, apareciam referências à Otan, à União Europeia e a líderes europeus, em crítica ao que parte da opinião pública vê como postura complacente diante do republicano.
A tradição das grandes caricaturas é fortemente associada ao artista Jacques Tilly, considerado o mais conhecido escultor satírico do país. Em 2026, ele voltou a ser destaque nos desfiles. Tilly responde a um processo na Rússia sob acusação de difamar instituições estatais russas e será julgado à revelia em Moscou no próximo dia 26 de fevereiro.
Em entrevista à AFP em dezembro, o artista classificou as acusações como “ridículas” e afirmou que voltaria a criticar Putin em suas obras. “A cultura do debate pode ser polêmica, mas isso não é compreendido na Rússia de Putin”, declarou.
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O presidente do Parlamento da Renânia do Norte-Vestfália, André Kuper, manifestou apoio ao caricaturista em nota divulgada neste domingo. “O procedimento penal iniciado na Rússia por difamação devido às suas caricaturas demonstra que apenas as democracias garantem a liberdade e o Estado de direito”, afirmou.
Entre as obras mais comentadas estava a de Putin vestido com uniforme militar cravando uma espada em um bobo da corte com a palavra “sátira” no chapéu. Outra escultura o mostrava pilotando um drone com as cores da Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita considerado pró-Rússia e principal força de oposição no país.

As críticas também atingiram o próprio governo alemão. O chanceler Friedrich Merz foi retratado montado sobre o esqueleto de um dinossauro, símbolo da indústria automobilística alemã em crise. A alegoria faz referência aos esforços do chanceler para rever a proibição, prevista para 2035 na União Europeia, da venda de veículos novos movidos a combustíveis fósseis.
Outra escultura mostrou Trump desferindo um soco em uma figura de Jesus Cristo que vestia camiseta com a inscrição “Amor e Humanidade”. Na manga do terno do presidente americano aparecia a sigla “ICE”, referência à agência de imigração dos Estados Unidos.

Com tradição centenária, o “Rosenmontag” reafirma o carnaval alemão como palco de crítica política aberta. Em meio a tensões internacionais e processos judiciais, os desfiles voltaram a expor líderes e temas sensíveis sob a lente da sátira pública.

