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Candidato brasileiro ao Oscar 2026, ficção com Rodrigo Santoro é um dos melhores filmes nacionais do ano e está na Netflix

Em “O Último Azul”, Gabriel Mascaro imagina um Brasil de futuro próximo em que envelhecer deixa de ser apenas uma etapa da vida e passa a ser um problema de gestão. A protagonista, uma mulher de 77 anos interpretada por Denise Weinberg, recebe uma ordem direta: deixar a cidade amazônica onde construiu sua história para viver em uma colônia habitacional exclusiva para idosos. Não há escolha real, apenas a formalidade de um comunicado que transforma rotina em urgência.

Essa mulher, cujo nome pouco importa diante do que representa, reage de forma silenciosa, mas firme. Antes de aceitar o deslocamento forçado, decide realizar um último desejo pessoal, algo ligado aos rios e aos caminhos que sempre fizeram parte de sua vida. Não é um plano grandioso nem heroico. É uma decisão prática, quase íntima, que esbarra imediatamente em prazos, regras e na vigilância constante de um sistema que não foi feito para negociar.

Ao longo dessa jornada, o filme acompanha os pequenos movimentos necessários para que esse desejo se concretize. Cada deslocamento exige cálculo, cada parada implica risco. O tempo passa a ser um inimigo visível, e o simples ato de seguir adiante se transforma em resistência. Mascaro evita qualquer tom épico e aposta no cotidiano: o drama nasce do atrito entre uma vontade pessoal e uma estrutura que funciona por formulários, autorizações e limites bem definidos.

Rodrigo Santoro surge como uma presença que tensiona esse percurso. Seu personagem representa um ponto de contato com o mundo que administra, controla ou observa esse deslocamento dos corpos idosos. Não se trata de um vilão clássico, mas de alguém inserido numa engrenagem que opera com frieza institucional. Cada interação com ele carrega um peso objetivo: permitir, atrasar ou dificultar o caminho da protagonista, sempre com consequências claras.

Miriam Socarras também entra na história como parte desse trajeto humano, oferecendo contraste e proximidade. Sua personagem ajuda a lembrar que, mesmo num cenário distópico, ainda existem vínculos, escutas e gestos que escapam à lógica puramente burocrática. Essas relações não resolvem o conflito central, mas criam pequenas frestas de afeto e cumplicidade, que tornam a travessia menos solitária.

“O Último Azul” acerta ao nunca transformar sua premissa em discurso. O filme não explica demais, não aponta culpados com o dedo em riste e tampouco busca grandes frases de efeito. O que vemos são decisões sendo tomadas, obstáculos surgindo e efeitos imediatos recaindo sobre quem tem menos margem de escolha. A distopia funciona justamente porque parece próxima demais da realidade, organizada em regras plausíveis e procedimentos reconhecíveis.

Visualmente, Mascaro mantém a câmera atenta aos corpos e aos espaços, usando o ambiente amazônico não como cartão-postal, mas como território vivido, percorrido e, aos poucos, interditado. O ritmo acompanha o estado da protagonista: às vezes mais contemplativo, às vezes tenso, sempre consciente de que o tempo está acabando. A técnica nunca chama atenção para si; ela serve para reforçar a sensação de espera, deslocamento e perda gradual de controle.

“O Último Azul” é um filme sobre autonomia e limite, mas contado de forma contida e profundamente humana. Denise Weinberg entrega uma atuação precisa, feita de silêncios, olhares e decisões pequenas que dizem muito. Sem recorrer a choques ou reviravoltas, o filme constrói um drama que incomoda justamente por parecer possível, próximo e administrável demais. É um futuro que não grita, apenas envia um aviso e aguarda obediência.

Filme:
O Último Azul

Diretor:

Gabriel Mascaro

Ano:
2026

Gênero:
Drama/Ficção Científica

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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