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Bizarro, real e assustador: adaptação de best-seller de Don DeLillo está na Netflix

“Ruído Branco” acompanha Jack Gladney (Adam Driver), um professor universitário que fala de morte com desenvoltura acadêmica, mas entra em curto-circuito quando precisa encará-la fora da sala de aula. Ele vive com Babette (Greta Gerwig) e os filhos em uma rotina aparentemente organizada, feita de horários, tarefas domésticas e discursos tranquilizadores. O problema é que essa organização funciona mais como encenação do que como proteção real. Quando algo foge do controle, Jack percebe que o vocabulário sofisticado e a pose intelectual não oferecem abrigo algum.

Babette, por sua vez, lida com o medo de maneira mais prática e silenciosa. Ela tenta manter a casa funcionando, cuida dos filhos e sustenta uma calma que claramente cobra um preço alto. Greta Gerwig constrói a personagem sem exageros, mostrando como o pânico pode se infiltrar em decisões banais e transformar pequenas escolhas em apostas arriscadas. A relação entre Jack e Babette não entra em crise por grandes revelações, mas pelo desgaste de fingir normalidade quando o corpo e a mente já não acompanham o discurso.

Noah Baumbach acerta ao tratar o terror mais como pressão cotidiana do que como espetáculo. O desconforto nasce de avisos confusos, conversas atravessadas e da sensação constante de que ninguém sabe exatamente o que está acontecendo. É aí que entra Murray Siskind (Don Cheadle), colega de Jack, funcionando quase como um espelho incômodo. Ele provoca, ironiza e expõe contradições com frases diretas, desmontando a falsa segurança intelectual do protagonista. Don Cheadle imprime humor e lucidez, sem transformar o personagem em alívio cômico fácil.

A comédia do filme surge justamente desse descompasso entre o que os personagens dizem e o que conseguem sustentar. Jack insiste em parecer no controle quando tudo ao redor já mostrou o contrário. Esse humor é seco, às vezes constrangedor, e funciona porque vem do comportamento humano, não de piadas óbvias. Baumbach observa seus personagens como quem acompanha alguém tentando manter a postura enquanto o chão se move lentamente.

“Ruído Branco” não oferece respostas reconfortantes nem grandes viradas. O interesse está em acompanhar como essas pessoas seguem vivendo, mesmo depois de perceber que o medo não pode ser eliminado, apenas administrado. Adam Driver entrega um de seus trabalhos mais afinados, alternando arrogância, fragilidade e desespero contido com naturalidade. No fim, o filme deixa a sensação incômoda de que o maior barulho não vem de fora, mas da tentativa constante de fingir que está tudo sob controle.

Filme:
Ruído Branco

Diretor:

Noah Baumbach

Ano:
2022

Gênero:
Comédia/Drama/Mistério/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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