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Belchior também é uma voz no coração da Eslovênia

As vozes que povoam minha cabeça humilham qualquer tentativa de explicar a polarização do mundo contemporâneo. Não têm dois lados. Ecoam de parte a parte, como se a caixa craniana vazia fosse. Carregam visões multipolares: uma hora são pinguins saltitantes, feitos antárticos pensamentos, noutra são albinos ursos polares, Polo Norte sofrendo com o aquecimento global. 

Leio sobre ondas sonoras. Propagam-se a 343 metros por segundo, se no ar. Na água, andam lépidas: 1480 metros por segundo. Em materiais sólidos, o som é mais rápido ainda — a ideia é que quanto mais rígido o treco, maior a velocidade. 

Em termos de ciências, sempre gostei mais das exatas. Porque têm poesia. Ritmo. Tempo.  

Se meu cérebro fosse feito de aço e as vozes da minha cabeça fossem audíveis, elas se propagariam internamente a impressionantes 5 mil metros por segundo. Ia ecoar voz por todo lado da cabeça. 

Bobagem. Nem meu peito é de aço, quem dera meu cérebro. 

E mesmo que a definição de ondas sonoras as explique como “perturbações mecânicas longitudinais que se propagam através de um meio material sólido, líquido ou gasoso” e que seja real o fato de minhas vozes internas me deixarem comumente perturbado, não acho que estejamos falando da mesma coisa. 

Em uma lógica cartesiana, isso pode me fazer supor que haja um tremendo vácuo no interior de minha cabeça, justificando este silêncio das vozes que existem — afinal, lição básica de física, o som não se propaga no vácuo e o espaço sideral, ao contrário do mostrado nos filmes de ficção científica, é um avassalador silêncio.

Todas essa firulas reflexivas para contar que quando estou caminhando pela rua, indefectivelmente munido de meus fones de ouvido, uma voz interna me incomoda com a questão: será esta a primeira vez que a gravação de ondas sonoras emitidas por este artista brasileiro resultou em perturbações mecânicas longitudinais que se propagaram neste exato lugar? 

Assim, por exemplo, sinto que nesta manhã de inverno semeei pedaços de Belchior, de Dalva de Oliveira e de Maria Bethânia ao redor do lago de Bled. Que, a propósito, segue sendo o lugar mais lindo do planeta. 



Fonte

Redação

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