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Baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald: o romance ao contrário de David Fincher que venceu 3 Oscars — no Prime Video

A premissa é simples de enunciar e difícil de sustentar sem cair na fábula conveniente: viver com o corpo andando contra o calendário. O drama romântico de fantasia “O Curioso Caso de Benjamin Button”, dirigido por David Fincher, aposta nessa dificuldade e a transforma em matéria narrativa. Brad Pitt interpreta Benjamin, Cate Blanchett vive Daisy, e Taraji P. Henson dá rosto a Queenie, a mulher que o acolhe quando ele nasce com aparência e doenças de idoso e passa a rejuvenescer. O conflito central é um amor que precisa encontrar espaço num tempo que empurra os dois em direções opostas.

Fincher escolhe contar tudo a partir de uma moldura de urgência. Daisy, já velha, está num hospital de Nova Orleans em 2005; a filha, Caroline, lê o diário de Benjamin enquanto a cidade aguarda a chegada do furacão Katrina. A opção cria um prazo externo que pressiona cada lembrança: há pouco tempo, há muita vida, e cada página parece disputar espaço com a água que se anuncia. O prólogo ainda instala uma ideia simples e dura: lembrar é insistir quando o mundo pede recuo.

Relógio ao contrário, vida ao contrário

O primeiro objeto que o filme coloca no caminho é o relógio da estação, projetado para correr ao contrário. O relojoeiro cego Mr. Gateau aceita a encomenda e decide inverter os ponteiros como memorial aos filhos perdidos na Primeira Guerra, inclusive o dele. A decisão dá ao filme um rito: o tempo é medido, mas o luto deseja outra direção. O relógio não explica Benjamin; ele instala um padrão de retorno. Quando o diário leva a narrativa de volta a 1918, a regra do jogo já está dada.

A partir daí, a trama assume seu primeiro conflito social, sem alegoria. Benjamin é abandonado ainda bebê e vai parar numa casa de repouso, onde Queenie decide criá-lo apesar do espanto que o corpo “velho” provoca. O obstáculo é concreto: ninguém sabe onde encaixar aquela criança, e a convivência cotidiana com a velhice muda o modo como ele aprende a desejar, a ter medo, a planejar. A consequência da escolha de Queenie é decisiva, porque dá a Benjamin uma origem afetiva sólida e um lugar em que a diferença se normaliza sem virar espetáculo.

Daisy e os reencontros em descompasso

Quando Daisy entra na vida dele ainda criança, o roteiro encontra um motor dramático de alta crueldade, porque é lógico e insolúvel. Daisy cresce, sonha com a dança e reaparece ao longo dos anos; Benjamin rejuvenesce e, por isso, ora parece velho demais para acompanhar o mundo, ora jovem demais para sustentar o que quer. A relação funciona por causa e efeito: cada reencontro muda objetivos, muda riscos, muda o que cada um pode oferecer sem se quebrar. A promessa do filme não é o “destino” romântico, e sim a pergunta insistente sobre o que ainda cabe, agora, e o que já ficou inviável.

Com uma duração ampla, o filme poderia se perder em cartões-postais de época, mas Fincher tende a puxar o olhar para o custo íntimo de cada passagem de tempo. Benjamin ganha autonomia e, ao longo da vida, vive experiências que o afastam do círculo inicial, e isso desloca a relação com Daisy: o que era expectativa vira escolha, e a escolha cria consequências. Só que o obstáculo não some, ele apenas muda de forma. Existe um período em que os dois parecem ter a mesma fase de corpo, um acordo provisório com o relógio, e é justamente aí que a história cobra decisões que foram adiadas.

Em certo ponto, a história afunila para a vida comum. Casa. Filha. Rotina. E, de repente, recuo. Benjamin decide se afastar. Daisy fica. O tempo entra na sala na forma de responsabilidade e calendário. A decisão não aparece como gesto virtuoso; aparece como medo e como cálculo, uma tentativa de poupar os outros de um futuro que ele não sabe administrar. A consequência é direta: o romance deixa de ser promessa e passa a ser memória em construção, carregada por quem segue envelhecendo do jeito “certo”.

Maquiagem, efeitos visuais e legibilidade emocional

Para sustentar essa linha sem transformar tudo em truque, o filme depende de um trabalho técnico que tem função dramática clara, ou melhor, de legibilidade emocional. Maquiagem e efeitos visuais permitem que o espectador leia idade, desgaste e vigor no mesmo rosto em momentos diferentes, e isso altera a compreensão de cada reencontro. A direção de arte e o desenho de época mantêm continuidade quando os anos saltam, evitando que o tempo pareça capricho. Não é casual que o filme tenha sido reconhecido no Oscar com 13 indicações e três vitórias, incluindo direção de arte, maquiagem e efeitos visuais.

Fincher mantém a narrativa presa a um princípio simples: tempo é pressão. O diário lido no hospital, a cidade à espera do Katrina e o relógio invertido reaparecem como instrumentos de medida, voltando para lembrar que cada fase tem um preço e uma duração curta. A cada retorno, o filme repõe a mesma pergunta em termos práticos: o que um corpo permite hoje e o que ele já negará amanhã. Quando a leitura avança, o efeito é menos de surpresa do que de contabilidade afetiva, com idades que se cruzam e se desencontram sem trégua.

Filme:
O Curioso Caso de Benjamin Button

Diretor:

David Fincher

Ano:
2008

Gênero:
Drama/Fantasia/Romance

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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