Categories: Cultura

Baseado em um best-seller que vendeu milhões, esse filme da Netflix transforma amor e tempo em algo inesquecível

Dirigido por Robert Schwentke, com Eric Bana, Rachel McAdams e Ron Livingston, “Te Amarei para Sempre” pousa uma história fantástica em terreno concreto. Henry DeTamble é bibliotecário em Chicago, sofre de uma condição genética rara e desaparece sem aviso, enquanto Clare Abshire cresce com a lembrança de um homem que surgia num campo perto da casa de seus pais, ainda na infância dela. Quando os dois se reencontram adultos na biblioteca, ela sabe com quem está falando; Henry, não. Para ele, boa parte do que para ela já virou memória ainda não aconteceu.

Essa desordem do tempo poderia ficar no enfeite, mas o roteiro insiste em dar peso físico a cada salto. Henry reaparece nu em outros momentos da própria vida, precisa improvisar abrigo, roupa e proteção, e transforma qualquer gesto banal em risco imediato, porque basta um segundo para sumir de uma sala, de uma conversa ou de um movimento comum. A fantasia, assim, não paira no ar. Ela toma o chão, o constrangimento, o medo e a vergonha prática de quem nunca sabe onde vai acordar.

Clare e o tempo torto

Clare não ama uma ideia vaga, e isso importa. Ama um homem atrasado. Os encontros no campo, quando ainda era menina, já mostram uma relação torta desde a origem, porque para ela Henry chega como presença marcada, quase habitual, enquanto para ele muita coisa segue fora de ordem e fora de alcance. Mais tarde, a cena da biblioteca repete esse corte por outro caminho, com ela reconhecendo de imediato alguém que a encara como desconhecida. Rachel McAdams sustenta essa espera sem adoçar demais a personagem e deixa no rosto o desgaste de quem aprendeu a conviver com uma ausência que pode cair no meio da tarde.

Robert Schwentke prefere uma condução direta mesmo diante de uma premissa embaralhada. O tom vem cedo. A abertura com o acidente de carro da infância de Henry, seguida pela aparição do seu eu adulto diante do menino ainda em choque, fixa um trauma antes de qualquer explicação, e a ida ao geneticista Dr. Kendrick reforça que essa condição não obedece nem à vontade nem ao amor. Em vez de tratar a viagem no tempo como engenho vistoso, o filme a aproxima do que ela tem de mais ingrato, que é um homem incapaz de permanecer inteiro no próprio presente.

Casamento, ausência e remendo

Essa escolha aparece com mais força no casamento, talvez o momento em que “Te Amarei para Sempre” alcança sua nota mais triste. Nada para quieto ali. Henry desaparece pouco antes da cerimônia, uma versão futura dele ocupa a lacuna aberta pelo salto e o ritual que deveria assentar a vida do casal já nasce atravessado por improviso, atraso e ausência. O que seria pacto vira remendo, e a cena resume, com poucas ações muito claras, como o romance entre os dois depende sempre de um ajuste precário entre o relógio e o desejo.

Nem tudo acerta do mesmo jeito, e alguns atalhos enfraquecem o peso dessa ideia. A loteria pesa mal. Quando o roteiro usa o conhecimento do futuro para facilitar dinheiro e conforto, a história simplifica justamente o que tinha de mais doloroso, como se a desordem material pudesse ser resolvida com uma saída prática. Ainda assim, o que fica é outra coisa: Clare tentando montar uma vida comum com um bibliotecário de Chicago que pode ser arrancado da sala a qualquer instante, e Henry voltando sempre a pessoas, lugares e cenas que o puxam pela carga emocional. Permanece a roupa deixada para trás e o silêncio frio da biblioteca.



Fonte

Redação

Recent Posts

ADNOC Gas diz que demanda doméstica ainda está sendo atendida após ataque de Habshan

A ⁠ADNOC Gas ‌disse neste domingo que ‌a demanda doméstica nos Emirados Árabes Unidos ⁠estava…

8 minutos ago

Pouca gente lembra, mas Bruce Willis estrelou um dos suspenses policiais mais sombrios e tensos do cinema, na Netflix

Em “Zona de Perigo”, Rowdy Herrington coloca Bruce Willis, Sarah Jessica Parker, Dennis Farina e…

21 minutos ago

Irã diz que várias “aeronaves inimigas” foram destruídas durante missão de resgate

DUBAI, 5 Abr (Reuters) – ⁠Várias aeronaves foram destruídas ⁠no sul da província de ‌Isfahan,…

1 hora ago

Dirigido por múltiplos talentos, como Paolo Sorrentino, Fernando Meirelles e John Turturro, sequência de filme sobre o amor chega à Netflix

Em “Rio, Eu Te Amo”, dirigido por nomes como Vicente Amorim, Guillermo Arriaga e Stephan Elliott, e com participações…

1 hora ago

Israel diz que mais de 1.000 mísseis iranianos ainda podem atingir o país

Israel estima que o Irã ainda tenha mais de 1.000 mísseis com alcance suficiente para…

2 horas ago

Time de Messi, Inter Miami inaugura estádio milionário e consolida projeto na MLS

Miami – Em muitos aspectos, o Nu Stadium, a nova arena coberta e reluzente do…

3 horas ago