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Baseado em obra de Stephen King, terror que foi rechaçado à época, hoje virou clássico cult na HBO Max

“Apanhador de Sonhos” parte de uma premissa que carrega, desde o início, uma tensão difícil de equilibrar: a tentativa de transformar laços de infância, marcados por um episódio quase sagrado, em um confronto direto com o absurdo cósmico. Henry (Thomas Jane), Jonesy (Damian Lewis), Beaver (Jason Lee) e Pete (Timothy Olyphant) são unidos não apenas pela amizade, mas por um resíduo psíquico adquirido ao protegerem Duddits (Donnie Wahlberg), um garoto com deficiência intelectual, vítima de violência. O gesto, que poderia permanecer como memória ética e afetiva, ganha contornos sobrenaturais e passa a ditar o destino desses homens décadas depois, durante uma viagem anual a uma cabana isolada no Maine.

A narrativa não se contenta em explorar essa herança emocional. Ela a empurra para um território onde alienígenas parasitas, transmissões telepáticas e paranoia militar disputam espaço com lembranças de infância. Essa escolha define o tom do filme: tudo é tratado com uma solenidade que contrasta violentamente com o que está em jogo. O que poderia ser apenas estranho se torna excessivo, e esse excesso passa a ser o verdadeiro motor da experiência.

Infância, culpa e o peso do vínculo

A primeira camada do filme se ancora na ideia de que a infância nunca passa incólume pela vida adulta. As lembranças do encontro com Duddits não funcionam como simples flashbacks explicativos, mas como uma ferida aberta que reorganiza as relações entre Henry, Jonesy, Beaver e Pete. A comunicação telepática entre eles não simboliza apenas um poder especial, mas a impossibilidade de segredos num grupo que cresceu junto e se conhece demais. Jason Lee constrói Beaver como um sujeito que tenta mascarar esse peso com humor constante, enquanto Damian Lewis faz de Jonesy o elo mais frágil, tanto física quanto psicologicamente.

Donnie Wahlberg, irreconhecível como Duddits adulto, encarna uma figura quase messiânica, deslocada do mundo comum. Sua presença carrega uma estranheza que nunca se resolve completamente, e talvez nem devesse. O filme parece menos interessado em explicar Duddits do que em utilizá-lo como catalisador de tudo aquilo que foge à lógica cotidiana.

Paranoia, monstros e o delírio militar

Quando a ameaça alienígena se instala, “Apanhador de Sonhos” abandona qualquer tentativa de contenção. As criaturas parasitas, grotescas e invasivas, transformam o corpo humano em território de guerra. Em paralelo, o coronel Curtis, vivido por Morgan Freeman, surge como uma caricatura sombria da autoridade militar: obcecado pelo controle, disposto a exterminar civis em nome de uma suposta salvação coletiva. Freeman interpreta Curtis com uma rigidez quase teatral, sustentada por um olhar que oscila entre lucidez estratégica e delírio absoluto.

O confronto entre os amigos e o aparato militar não constrói uma metáfora sutil. Tudo é literal, exagerado, barulhento. Helicópteros, quarentenas improvisadas e decisões extremas se acumulam até que o filme parece operar num regime de saturação constante. Ainda assim, há algo hipnótico nessa recusa em recuar. O roteiro aposta na crença de que levar o absurdo a sério, até as últimas consequências, pode gerar uma forma própria de coerência.

O estranho como experiência total

O resultado é irregular, por vezes constrangedor, mas raramente indiferente. Ao insistir em unir tudo aquilo que deveria, em tese, se repelir, o filme acaba criando uma experiência singular. Não pela harmonia, mas pelo choque constante entre intenções sérias e soluções narrativas delirantes. É nesse atrito que reside sua estranha vitalidade, uma lembrança de que nem todo fracasso narrativo é silencioso, e que alguns fazem questão de gritar até o último minuto.

Filme:
Apanhador de Sonhos

Diretor:

Lawrence Kasdan

Ano:
2003

Gênero:
Drama/Ficção Científica/Suspense/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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