Entregas de jatos avançam 11,8%, faturamento atinge US$ 35,7 bilhões e crescimento se concentra em modelos de cabine larga e super-médios, enquanto turboélices registram retração moderada em 2025
A indústria global de aviação geral encerrou 2025 com expansão relevante nos segmentos de maior valor agregado, reforçando a trajetória de crescimento iniciada no pós-pandemia e consolidando uma mudança estrutural na composição da demanda. De acordo com o relatório anual da General Aviation Manufacturers Association (GAMA), as entregas de jatos executivos cresceram 11,8%, passando de 764 unidades em 2024 para 854 aeronaves em 2025.
No mesmo período, o faturamento total de aeronaves a pistão, turboélices e jatos atingiu US$ 31,0 bilhões, alta de 16,1% frente aos US$ 26,7 bilhões do ano anterior. O crescimento do faturamento acima da expansão em unidades indica um mix mais concentrado em aeronaves de maior porte e preço unitário elevado, particularmente nos segmentos de cabine larga (large/ultra-long range) e super-médio. Ao mesmo tempo, o mercado de turboélices apresentou retração de 5,1%, com 594 unidades em 2025 contra 626 em 2024, sinalizando acomodação após dois anos de forte demanda.
No agregado, as entregas totais de aviões subiram 2,2%, de 3.162 para 3.230 unidades, enquanto o valor global de todas as aeronaves civis (incluindo helicópteros) alcançou US$ 35,7 bilhões, o maior patamar já registrado segundo a associação.
Crescimento concentrado nos extremos do portfólio
O avanço de 11,8% nas entregas de jatos de negócios não foi homogêneo, mas refletiu desempenho robusto nos jatos leves de nova geração, nos super-médios e, sobretudo, nos modelos de cabine larga e ultra-long range.
A Gulfstream manteve a liderança em faturamento e ampliou as entregas totais de 136 aeronaves em 2024 para 158 em 2025. Embora não divulgue os números individualizados por modelo no relatório do GAMA, consolidando as entregas por família, observa-se que o avanço esteve concentrado na linha de cabine larga — que reúne os G500, G600, G650/ER, G700 e G800 — com crescimento de 118 para 136 unidades 2024, evidenciando a força do segmento de longo alcance. O faturamento estimado subiu de US$ 8,27 bilhões para US$ 10,01 bilhões, refletindo maior participação de aeronaves de alto valor unitário.
A Bombardier também apresentou expansão consistente. As entregas totais passaram de 146 unidades em 2024 para 157 em 2025. O principal vetor de crescimento foi a família Global (5500/6000/6500/7500/8000), que avançou de 73 para 86 aeronaves. Já a linha Challenger 3500/650 recuou levemente, de 73 unidades em 2024 para 71 em 2025. Ainda assim, o faturamento estimado subiu de US$ 6,99 bilhões para US$ 7,94 bilhões, indicando que o aumento das entregas dos Global — aeronaves de maior valor unitário — compensou a ligeira retração na família Challenger e elevou o valor total das vendas
A Dassault Aviation, que reporta entregas consolidadas sem detalhamento por modelo no relatório do GAMA, elevou suas entregas combinadas de 31 aeronaves em 2024 para 37 em 2025. O faturamento estimado avançou de US$ 1,587 bilhão para US$ 2,116 bilhões, refletindo a consolidação do Falcon 6X e a continuidade das entregas do 8X e 2000LXS.
No segmento de jatos leves e super-médios, a Embraer ampliou entregas de 130 para 155 aeronaves. O Phenom 300E permaneceu como principal produto, crescendo de 60 para 66 unidades. A família Praetor também avançou, com o Praetor 500 saindo de 28 para 39 entregas e o Praetor 600 de 27 para 30 aviões. O faturamento estimado cresceu de US$ 2,05 bilhões para US$ 2,52 bilhões, reflexo da combinação de bom desempenho nos jatos leves e médios.
A Textron Aviation, combinando as linhas Cessna e Beechcraft, ampliou as entregas totais de 559 aeronaves em 2024 para 639 em 2025. A empresa reporta o faturamento de forma consolidada para todo o portfólio — que inclui jatos Citation, turboélices King Air e Caravan, além de modelos a pistão — e não segmentado apenas para a aviação executiva. O valor combinado avançou de US$ 3,28 bilhões para US$ 3,79 bilhões no período. Dentro do segmento de jatos, os principais destaques foram o Citation Latitude, que passou de 40 para 47 unidades, e o Longitude, de 23 para 25, além da manutenção de volumes consistentes nas séries CJ e M2. Isso indica que parte relevante da expansão de valor esteve associada ao desempenho da linha Citation, ainda que o faturamento divulgado reflita o conjunto das operações do grupo como um todo.
A Honda Aicraft permaneceu na base da pirâmide em volume absoluto, entregando em 2025, doze HA-420 HondaJet, contra onze em 2024. Trata-se do menor volume entre os fabricantes de jatos leves analisados no relatório. O resultado ficou ligeiramente abaixo do registrado pela Embraer na família Phenom 100 (14 unidades) e bem distante do Citation M2 Gen2, da Textron, que somou 22 entregas. No entanto, é importante destacar que a Honda Aicraft atua em um subsegmento específico — very light jets — com um único modelo em produção. Portanto, a posição em volume reflete a escala industrial e o escopo de portfólio, e não necessariamente perda de mercado em termos proporcionais.
Reconfiguração do mercado de turboélices
O segmento de turboélices recuou 5,1% em 2025, encerrando o ano com 594 unidades, contra 626 no ano anterior. A queda interrompe a sequência de crescimento pós-2020, embora os volumes permaneçam acima dos níveis pré-pandemia.
A Pilatus registrou retração nas entregas totais, passando de 147 aeronaves em 2024 para 132 em 2025. A mudança foi puxada principalmente pelo PC-12, cujas entregas recuaram de 96 para 82 unidades. O jato leve PC-24 apresentou variação marginal, de 51 para 50 aeronaves. Apesar do menor volume, o faturamento permaneceu acima de US$ 1,2 bilhão nos dois exercícios, indicando estabilidade no valor agregado do portfólio.
A Daher também apresentou redução no comparativo anual, com entregas totais passando de 82 para 76 aeronaves. O TBM 960 recuou de 56 para 51 unidades, enquanto a família Kodiak (100 e 900) somou 25 entregas em 2025, frente a 26 no ano anterior, evidenciando ajuste moderado e distribuído entre os dois programas.
Na Textron, o King Air apresentou leve retração combinada, com o King Air 260 e 360/ER somando 46 unidades em 2025 contra 44 em 2024, enquanto o Caravan manteve volume relevante, especialmente o Grand Caravan EX (78 unidades em 2025 contra 60 em 2024).
A Epic Aircraft ampliou suas entregas de 26 aeronaves em 2024 para 28 em 2025. O crescimento foi impulsionado pela introdução do E1000 AX, que complementa o GX no segmento de monoturboélices de alta performance. O avanço contrasta com a retração agregada dos bimotores turboélices, indicando resiliência em nichos premium de operação single-engine.
A Piper manteve estabilidade no volume total, com 291 aeronaves entregues tanto em 2024 quanto em 2025. No segmento executivo monoturbina, o M700 Fury consolidou-se com 47 entregas em 2025, ante 46 no ano anterior, enquanto o M600 apresentou retração relevante, com apenas uma entrega ano passado, frente a modesta três entregas de 2024. O desempenho reforça a transição do portfólio para modelos de maior potência e tecnologia embarcada.
Os dados indicam que a retração do segmento foi difusa, mas concentrada nos turboélices corporativos de maior valor unitário, enquanto aeronaves utilitárias e de nicho mantiveram estabilidade relativa.
Posição geográfica e concentração de mercado

A América do Norte segue como principal destino das entregas de jatos executivos, concentrando 64,9% em 2025, contra 69,4% em 2024. A redução percentual sugere leve diversificação geográfica, com maior participação relativa de Europa, América Latina e Oriente Médio.
No recorte geográfico, a América Latina manteve participação relevante, especialmente no segmento de turboélices, que respondeu por 17,3% das entregas globais em 2025. Nos jatos de negócios, a região concentrou 10,8% das entregas, percentual inferior ao da América do Norte, mas consistente com o perfil operacional regional. O dado reforça a importância do turboélice como ferramenta estratégica para o mercado latino-americano, mesmo em um cenário global de expansão dos jatos de maior porte.
A leitura combinada de 2024 e 2025 aponta três vetores principais:
- Consolidação do segmento de cabine larga como motor de faturamento, liderado por Gulfstream e Bombardier.
- Sustentação da demanda por jatos leves e super-médios, com destaque para Embraer e a linha Citation.
- Ajuste cíclico no mercado de turboélices após pico de recomposição de frota.
O crescimento de 16,1% no valor das entregas de aviões, frente a alta de 2,2% em unidades, sintetiza o momento de menos expansão volumétrica e maior concentração em aeronaves de alto valor agregado. O mercado de aviação de negócios encerra 2025 não apenas maior, mas mais sofisticado e financeiramente robusto do que no ano anterior.

