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Atuação de tirar o fôlego de Al Pacino em obra-prima do cinema, na Netflix

“Perfume de Mulher”, dirigido por Martin Brest, se inspira no romance italiano “A Escuridão e o Mel”, de Giovanni Arpino, sobre um tenente-coronel cego, amargo e decidido a morrer, contrata um estudante para acompanhá-lo num fim de semana que ele promete ser o último. Al Pacino vive Frank Slade com uma mistura de arrogância, dor e humor ácido; Chris O’Donnell interpreta Charlie Simms, o jovem bolsista que aceita o trabalho para garantir dinheiro e proteger seu futuro acadêmico. No meio desse acordo aparentemente simples, surge um conflito maior: enquanto Slade organiza sua despedida, Charlie enfrenta uma pressão pesada na escola, representada pelo diretor vivido por James Rebhorn, que exige que ele entregue colegas em troca da própria segurança.

O filme começa com esse contrato silencioso. Charlie precisa do pagamento para manter a chance de entrar em Harvard. Slade precisa de alguém que o conduza por aeroportos, hotéis e restaurantes enquanto executa um plano muito pessoal. A relação nasce torta: de um lado, um militar acostumado a mandar; do outro, um adolescente que mede cada palavra para não perder oportunidades. Slade testa Charlie o tempo todo, provoca, humilha, ri alto. Charlie engole seco e continua ali porque precisa do dinheiro. É uma troca prática, mas carregada de tensão.

Em Nova York, Slade assume o controle do roteiro. Reserva hotel caro, escolhe restaurante sofisticado, pede o melhor uísque. Ele quer experimentar luxo, música, perfume, companhia feminina. Não é sobre turismo; é sobre sentir que ainda decide algo. Pacino constrói esse homem com voz firme e passos calculados, alguém que não enxerga, mas domina o ambiente pelo tom. Há momentos de humor ácido, especialmente quando Slade flerta ou comenta a vida alheia com ironia quase cruel. A plateia ri, mas percebe que o sarcasmo é escudo.

Charlie, interpretado por O’Donnell com delicadeza contida, começa como simples acompanhante, mas aos poucos percebe o peso real daquele fim de semana. Ele não foi contratado só para guiar um homem pela cidade. Foi convocado, mesmo sem saber, para testemunhar uma decisão irreversível. Quando entende o que Slade pretende fazer no final da viagem, a dinâmica muda. O garoto deixa de ser passivo. Ele questiona, insiste, tenta ganhar tempo. A autoridade do coronel encontra resistência inesperada.

Paralelamente, a situação na escola esquenta. O diretor Mr. Trask, vivido por James Rebhorn, pressiona Charlie a delatar colegas envolvidos numa brincadeira ofensiva. É uma troca clara: nomes em troca de proteção. Charlie fica espremido entre duas forças. Se falar, garante estabilidade. Se ficar em silêncio, arrisca a bolsa e o sonho de Harvard. O filme acerta ao colocar esse dilema ao lado da crise de Slade. Um luta para manter a própria dignidade. O outro, para encontrar alguma razão para continuar.

Há uma cena emblemática em que Slade dança num restaurante elegante. É um momento leve, quase romântico, mas também profundamente humano. Ele conduz com segurança, sente o ritmo, ocupa o espaço como se a cegueira não existisse. Não é exibicionismo; é resistência. Ali, por alguns minutos, ele não é o homem que quer morrer. É alguém que ainda sabe viver. E Charlie observa tudo, entendendo que por trás do cinismo há medo.

O confronto final na escola amplia a dimensão da história. Slade decide intervir e usa sua voz como arma. Ele enfrenta o diretor, questiona a moral da instituição e defende Charlie diante de professores e alunos. Pacino transforma o discurso num embate direto, firme, sem sentimentalismo barato. É ali que o filme deixa claro que a autoridade pode ser usada para esmagar ou para proteger. E Slade, que parecia disposto a abandonar tudo, escolhe agir.

“Perfume de Mulher” nunca trata seus personagens como símbolos. Frank Slade não é apenas o homem cego e amargo; é alguém ferido, orgulhoso e contraditório. Charlie não é o jovem ingênuo; é um rapaz que aprende rápido quando a pressão aperta. Martin Brest conduz a história com ritmo clássico, deixando espaço para silêncios e explosões verbais. O resultado é um drama intenso, às vezes exagerado, mas sempre sincero.

Não marca apenas a performance marcante de Al Pacino, embora ela seja magnética do início ao fim. Fica a sensação de que, quando alguém decide desistir, basta uma presença firme ao lado para alterar o rumo. E essa mudança, mesmo sem promessas grandiosas, já é suficiente para transformar um simples fim de semana em algo inesquecível.

Filme:
Perfume de Mulher

Diretor:

Martin Brest

Ano:
1992

Gênero:
Drama

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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