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Atriz cancelada por apoiar Donald Trump chega ao Prime Video em uma das melhores comédias românticas do último ano

Bea encontra Ben quando a vida dela já parece abastecida de respostas prontas, e a dele, de autoconfiança exibida. Em “Todos Menos Você”, Will Gluck dirige Sydney Sweeney, Glen Powell e Alexandra Shipp num romance que nasce de um primeiro encontro elétrico e, quase sem aviso, descamba para uma hostilidade teimosa. Meses depois, os dois reaparecem no mesmo casamento na Austrália, obrigados a conviver em grupo e a sorrir para gente que não sabe da rixa. O conflito central é simples: fingir civilidade sem deixar que o orgulho devore o desejo que insiste em reaparecer.

O roteiro transforma esse encontro inicial, tratado como quase perfeito, numa lembrança que vira munição. Bea decide sumir e tocar a vida, porque enxerga nisso a forma mais segura de não se expor; Ben escolhe responder com frieza, para não parecer o lado rejeitado da história. O que poderia ter sido só um atrito vira regra. A cada reencontro, uma escolha. Eles escolhem a ironia. O obstáculo, desde cedo, é esse: qualquer tentativa de esclarecer o passado pode virar, em segundos, uma briga nova.

O casamento funciona como cerco social, daqueles que não toleram silêncio. Se Bea e Ben se evitam demais, chamam atenção; se se atacam, contaminam o ambiente. Para atravessar o fim de semana, fazem o que o filme anuncia sem rodeio: fingem ser um casal. A motivação não precisa ser bonita para ser crível. É reduzir constrangimento, controlar o que vai virar comentário, ganhar um pouco de ar. A consequência vem na hora: teatro pede continuidade, e continuidade exige coerência.

A farsa como escudo e a primeira aposta

Will Gluck conduz a farsa pelo confronto verbal, como se a fala fosse cabo de guerra. Eles combinam regras e quebram regras na mesma tarde. Ela tenta manter superioridade moral; ele, superioridade emocional. Um elogio atrasado soa como ironia. Uma desculpa torta parece ataque. Nessa dinâmica, toda frase pede resposta, e cada resposta reconfigura o risco: quanto mais se exibem na troca de farpas, mais difícil fica recuar sem perder a pose que acabaram de erguer diante dos outros.

A Austrália, com seu casamento de destino e sua lógica de evento contínuo, expõe o casal inventado em praça pública. Não há tempo morto de verdade, porque sempre existe um almoço, uma festa, um passeio, uma foto. O romance, em vez de crescer protegido, precisa se ajustar a esse calendário. Quando Bea decide sustentar o papel em situação social, faz isso para evitar perguntas e para provar que está no controle; quando Ben dobra a aposta, faz para não deixar que ela seja a única a ditar o ritmo da noite.

Plateia, família e testes de consistência

O elenco de apoio entra como plateia e como empurrão, às vezes com carinho, às vezes com invasão. Amigos e familiares observam, sugerem, apertam, como se a felicidade dos dois fosse parte do pacote do casamento. Alexandra Shipp, orbitando o núcleo da noiva, ajuda a transformar conversa casual em teste de consistência: alguém pergunta onde se conheceram, alguém pergunta há quanto tempo estão juntos, alguém compara reações. Para Bea e Ben, o obstáculo deixa de ser só um ao outro; passa a ser a memória que ainda não têm em comum.

A trilha sonora reforça a ideia de retorno com uma canção pop usada como motivo recorrente, “Unwritten”, de Natasha Bedingfield. Não é exatamente nostalgia, ou melhor, não só nostalgia; é um atalho emocional que marca o tempo do romance com algo reconhecível, como se a história lembrasse que certas segundas chances já chegam com ritmo pronto. O efeito dramático é concreto: quando a música volta, ela sugere que a farsa ganhou nova dose de verdade e que os dois perderam um pouco do controle sobre o próprio compasso.

Quando a mentira vira risco social

Bea. Ben. Um sorriso ensaiado. Uma mão no ombro. Um elogio curto. Um olhar que demora. Uma resposta torta. Uma tentativa de ir embora. Uma volta atrás. A comédia se apoia nesses movimentos mínimos, e por isso a tensão cresce sem alarde. Quando chega a hora de sustentar a mentira diante de gente que conhece o passado de cada um, a decisão de continuar atuando vira aposta alta: falhar significa virar assunto do casamento, e o risco maior é confirmar que o ressentimento sempre foi um esconderijo confortável.

“Todos Menos Você” carrega a sombra de “Muito Barulho por Nada” sem transformar Shakespeare em lição escolar. A referência serve como licença para o duelo, para o vaivém, para a troca de acusações que parece definitiva e logo se revela incompleta. Gluck filma os protagonistas como gente que fala demais para não admitir o essencial e mantém o romance sob pressão até que uma escolha simples, dizer a verdade com menos pose, fique cara demais para ser adiada. A história para com dois rostos tentando sustentar o sorriso que prometeram sustentar.

Filme:
Todos Menos Você

Diretor:

Will Gluck

Ano:
2023

Gênero:
Drama/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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