Gênero difícil é o documentário biográfico. No rock, a situação piora. Prevalecem as histórias de excessos, com as palavras mágicas de sempre: sexo, drogas e, de forma mais escondida, dinheiro. As narrativas se parecem muito, haja vista o belo filme “A Origem dos Red Hot Chili Peppers: Nosso Irmão Hillel” (2026), lançado recentemente pela Netflix. Também os registros são excessivamente masculinos. Diante disso tudo, fica difícil encontrar uma produção inovadora para ser vista.
Foi uma surpresa incômoda dar de cara com o documentário “Andar na Pedra: a História dos Raimundos” (2026), de Daniel Ferro, disponível na Globoplay. O estranhamento surge até em quem já conhece o grupo nascido em Brasília, na virada dos anos 1980 para os 1990. Se os relatos são tocantes e surpreendentes para um espectador qualquer, em vários pontos do Brasil (dado o êxito da banda), a coisa é mais profunda para quem acompanhou e viveu aquele contexto brasiliense da música.
Os depoimentos de “Andar na Pedra” se assemelham, sem exageros e afetações, a sessões de terapia. As falas de Rodolfo (cantor e guitarrista), Digão (guitarrista) e Fred (baterista) são testemunhos reveladores. Para completar a cena típica da psicanálise, a parte do baixista Canisso (já falecido) está em gravações de velhas fitas cassete. O gravador traz “verdades” à história, incluindo até o que não se poderia falar, em vários trechos do documentário. E o ato de desaguar no choro é uma constante dos cinco episódios.
A série vai da origem do Raimundos, no final dos anos 1980 em Brasília, até os dias atuais no que restou da banda (comandada ainda por Digão). A formação dos integrantes ocorreu na capital federal ao longo dos anos 1980, momento decisivo do rock brasileiro, quando se observa a maturação de uma geração. A cidade, nesse período, reunia condições muito particulares. Havia uma classe média alta com amplo acesso à informação, inserida num ambiente protegido, que favorecia a produção cultural.
Aqueles roqueiros de Brasília eram filhos de funcionários do governo federal, profissionais liberais, militares, o que garantia estabilidade material e acesso a bens simbólicos do mundo todo. Digão e Rodolfo moravam na área residencial do Lago Sul, com suas casas de família de alta renda. Fred, por sua vez, vinha da Asa Norte, o que de passagem é citado no documentário como uma forma diferente de ver o mundo. A série não explora a riqueza dos grupos do rock pesado das satélites Taguatinga e Guará.
Somava-se a isso a presença das embaixadas, que ampliava a circulação de referências culturais (festivais de cinema, shows, publicações). Também havia a rede significativa de equipamentos culturais no Plano Piloto (teatros, cinemas e bibliotecas), especialmente na região da Asa Sul. Nesse contexto, o rock encontrou um terreno propício para crescer, impulsionado por figuras como Renato Russo, que sintetizou, em sua própria linguagem, aquele universo dos “burgueses sem religião”.
O documentário de Daniel Ferro acompanha essa origem com atenção aos detalhes. Faz a reconstituição dos primeiros encontros entre os integrantes da banda, situando-os nesse ambiente cultural. A partir daí, a narrativa avança para os bastidores das gravações dos quatro primeiros discos dos Raimundos, oferecendo ao espectador uma cronologia e uma chave de compreensão do que estava em jogo. O que se revela é uma sucessão de momentos delicados e marcados por perdas pessoais e tensões.
Desde cedo, delineia-se uma espécie de bomba-relógio. O percurso que vai do primeiro disco, “Raimundos” (1994), passando por “Lavô Tá Novo” (1995) e “Lapadas do Povo” (1997), até chegar ao auge com “Só no Forevis” (1999), é apresentado como um processo de conflitos e crises criativas. Foi o período em que a banda contava com seus quatro integrantes originais. Mas, por trás da energia e do sucesso daqueles trabalhos, havia uma dimensão persistente de dor e sofrimento.
Quem assistia aos primeiros shows dos Raimundos, ainda como trio em bares de Brasília, poderia imaginar que algo grande e importante estava em gestação. Havia, no palco, a materialização de um encontro musical há muito esperado e com muita energia. Tratava-se do diálogo do rock com a música brasileira. No caso da banda, o encontro assumia uma forma particularmente singular na fusão do punk rock e do hardcore americano (Ramones, Suicidal Tendencies), com o forró do interior do Nordeste.
A combinação rock com forró incorporava referências do músico Zénilton, que explorava letras com linguagem carregada de duplo sentido. Daí deriva um traço marcante dos Raimundos, que é o uso intensivo de palavrões e expressões chulas, associadas ao corpo e à sexualidade. O que hoje Rodolfo reconhece como algo constrangedor pelos excessos verbais, à época funcionava como uma ruptura. Não havia nada parecido em termos estéticos no sistema do rock brasileiro.
Os Raimundos trouxeram uma linguagem brasileira, nordestina, para dentro de um rock ainda muito marcado por referências estrangeiras. Era uma fala popular e engraçada em sua grosseria. Havia uma renovação estética, tanto no plano da linguagem quanto na própria estrutura musical. O canto e o ritmo do forró do Nordeste se casaram bem demais com a agressividade sonora do rock produzido nos Estados Unidos e na Inglaterra.
O encontro do rock com um espírito da brasilidade não se dava isoladamente apenas em Brasília. Ao longo dos anos 1990, consolida-se no Brasil um sistema do rock que passa justamente pela releitura da música brasileira. Em Pernambuco, o grupo Chico Science & Nação Zumbi articulava maracatu, coco e ciranda com eletrônica, funk e hip hop. No Rio de Janeiro, o Planet Hemp experimentava a fusão entre o peso do rock e a cadência do samba de morro — linha que depois se desdobraria na trajetória de Marcelo D2.
Forma-se naquele começo da década de 1990 um momento singular, em que se rompeu uma série de separações tradicionais. Não se tratava mais da música brasileira assimilar o rock, como no tropicalismo, mas do inverso. Era o rock que passava a ler a música brasileira. Os Raimundos levam essa operação a um grau elevado de radicalidade, tanto estética quanto técnica, produzindo uma síntese. Ao mesmo tempo em que dialogavam com o exterior, eles afirmavam de modo contundente uma fala local.
Percebe-se ainda, nesse período, um movimento amplo de descentralização da produção musical. A partir dos anos 1980, e com maior força nos anos 1990, os mercados musicais deixam de se concentrar exclusivamente nos grandes eixos tradicionais e passam a se organizar em cenas locais, espalhadas por diferentes capitais. São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Curitiba desenvolvem circuitos próprios, tendo públicos específicos e formas particulares de circulação.
Mesmo cidades associadas a outros gêneros passam a abrigar essa movimentação. Goiânia, historicamente vinculada ao sertanejo, constituiu uma cena forte de rock, fato registrado no documentário “Goiânia Rock City” (2025), de Théo Farah. O filme dos Raimundos evidencia essa dinâmica que amplia o mapa da produção musical brasileira. Ocorre uma reorganização mais profunda, em que diferentes polos passam a disputar espaço simbólico e a produzir suas próprias linguagens.
Como o foco recai sobre a trajetória dos Raimundos, o documentário de Daniel Ferro não se detém no ambiente histórico mais amplo do rock em Brasília. Há uma sequência de gerações que ajudaram a situar a emergência da banda. Nos anos 1970, havia manifestações locais ligadas ao rock, mas ainda fortemente associadas à MPB. É apenas no início dos anos 1980 que se consolida uma primeira geração propriamente rock, com grupos como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.
A cena inicial foi marcada pela influência do rock inglês, com uma energia direta que se traduziu em projeção nacional e na consolidação desses nomes no circuito brasileiro. Uma segunda geração apareceu na sequência, mas acabou relegada ao esquecimento. Bandas como Escola de Escândalo, Finis Africae e Marciano Sodomita exploravam caminhos estéticos consistentes e até difíceis de classificar. O Marciano, por exemplo, combinava o universo de Pier Paolo Pasolini e a sonoridade de Black Sabbath.
Na virada para o final dos anos 1980, surge também na cidade uma figura que tensiona essas fronteiras: Cássia Eller. Sua trajetória, mais próxima da MPB, dialoga com tradições do rock brasileiro, especialmente com Os Mutantes de Rita Lee, e alcança grande projeção nacional. É, contudo, nos anos 1990 que se dá uma nova inflexão.
A terceira geração, já informada pela produção anterior, desenvolve uma linguagem própria. É nesse contexto que aparecem os Raimundos, ao lado de Little Quail & the Mad Birds, Maskavo Roots, Natiruts e Pravda. Trata-se já de uma cena diversa, que incorpora influências do reggae, funk e outras vertentes, consolidando um momento forte do rock em Brasília. Quem se interessar por essa fase riquíssima dos anos 1990, a sugestão é o documentário “Geração Baré-Cola” (2017), de Patrick Grosner.
A questão que se impõe, em documentários como o dos Raimundos, é quase sempre a mesma. Por que um grupo que lutou tanto, que construiu sua trajetória com esforço contínuo e opta por encerrar a carreira ao atingir o auge — ou por alterar radicalmente seu rumo? No caso da banda, o ponto de inflexão coincide com o lançamento de “Só no Forevis” (1999), quando se amplia de forma decisiva o alcance de público e as vendas. A banda atingiu um patamar impressionante.
O documentário acompanha de perto as consequências desse crescimento, mas mantém uma espécie de tensão permanente sobre o fim da formação original. O que emerge com força na série de Daniel Ferro é a exposição das trajetórias pessoais. Cada um dos quatro integrantes revela suas origens, questões familiares, conflitos formativos. A figura paterna, em alguns casos, é marcante, exercendo pressão e alimentando a necessidade de reconhecimento que atravessa toda a narrativa.
Mas, quando esse reconhecimento finalmente se aproxima, ele não resolve as tensões. Ao contrário, passa a se combinar com fatores como o consumo excessivo de drogas, a entrada forte de dinheiro e a intensificação da popularidade junto aos fãs. Forma-se, assim, um quadro em que as dimensões individuais e psicológicas se entrelaçam com as exigências externas do sucesso no sistema do rock brasileiro. Um fenômeno semelhante ao que acabou com a vida de Chorão, do grupo Charlie Brown Jr.
O ponto de ruptura dos Raimundos é tratado de maneira direta e detalhada no quarto episódio, centrado na figura de Rodolfo Abrantes. Sua conversão religiosa, já conhecida publicamente, é um momento decisivo e resulta numa transformação profunda dele em termos de comportamento e de valores. A adesão à religião evangélica não aparece como um detalhe, mas como um gesto que reorganiza completamente sua relação com a música e o grupo. Ficou inviável a continuidade daquela formação.
As divergências e as consequências desse processo são expostas com uma transparência pouco usual. O documentário tem assim um caráter, ao mesmo tempo, de revelação e de desconforto. O que permanece, ao final, é o legado deixado pelo grupo no campo cultural do Brasil. O fato inegável é que os Raimundos consolidaram uma forma de música jovem que operava a fusão entre o rock pesado estrangeiro e a música brasileira, abrindo uma via estética ainda presente no mercado.
Hoje, existem múltiplos núcleos de produção musical espalhados pelo país, fora do circuito de maior visibilidade e vendagem, mas com impacto significativo e estético. Paralelamente, observa-se uma mudança no próprio consumo musical brasileiro, que se desloca do eixo tradicional do carnaval e do samba para outras formas de sociabilidade, como as festas juninas e a música do interior, sobretudo o sertanejo.
A herança dos Raimundos é o encontro de linguagens. Ele antecipa transformações mais amplas. Há um momento emblemático nesse percurso, quando a banda gravou uma versão em chave country ou sertaneja da música “Mulher de fases”, em 1999, justamente no auge de sua carreira. Ali se delineava a possibilidade que não chegou a ser plenamente explorada, mas que permanece como indício de um caminho aberto e que redefine a identidade da música brasileira contemporânea.
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