A memória do repórter por vezes falha, mas caso não seja esta uma delas, foi o escritor Miguel Sanches Neto quem me disse, bom par de anos atrás, que era — ou é — avesso a tirar fotografias quando viaja.
Admitiu, contudo, que carrega um canhenho e um bom lápis apontado, registrando memórias do estrangeiro em textos, garatujas e desenhos. Achei bonita a imagem: o escritor traduzindo in loco sensação em grafia.
Não parece ser este o caso, contudo, do matemático John Nash, acadêmico norte-americano alçado à fama pelo Nobel de Economia em 1994 e, principalmente, pelo filme ‘Uma Mente Brilhante’, de 2001. Quando voltou para Nova Jérsei depois de sua primeira visita a São Paulo, 16 anos atrás, Nash descarregou 172 fotos em sua homepage no site do Departamento de Matemática da Universidade de Princeton, onde ele atuava como pesquisador. Captadas com sua câmera, uma simples Canon PowerShot SD 790 IS, as imagens traziam lembranças de seus dias na capital paulista, onde esteve com a mulher, a física Alicia, e o filho, o matemático John Charles.
São fotos como as de um turista qualquer, desses que querem absorver as impressões de uma cidade como São Paulo. Mas Nash não era um turista qualquer — era uma celebridade intelectual. Na companhia da mulher e do filho, ele visitou os shoppings Villa-Lobos e Cidade Jardim, comeu em um restaurante japonês e em uma churrascaria rodízio, esteve no Instituto Tomie Ohtake e no Museu de Arte de São Paulo, entre outros lugares.
Na maioria das fotos ele não aparece — ao que tudo indica, são cliques feitos pelo próprio. Observá-las é tentar imaginar o que mais cativou a atenção de Nash. Por exemplo: a famosa carambola gigante característica e as curvas da fachada do Instituto Tomie Ohtake, obra do arquiteto Ruy Ohtake. Ou o tráfego de veículos da Rua Pedroso de Moraes, em Pinheiros, contemplado a partir da janela de seu apartamento de hotel, o George V. Também parece ter se impressionado com o vão livre do Masp e com a Marginal do Pinheiros vista de cima, no caso, do piso superior do shopping Cidade Jardim. Fotografou ainda a TV ligada em um programa sensacionalista da TV Record.
Nash esteve em São Paulo a convite da matemática Marilda Sotomayor, professora na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. Ele era a principal estrela e o homenageado do congresso internacional de Teoria dos Jogos realizado naquele ano. O evento ocorreu de 29 de julho a 4 de agosto de 2010, na Cidade Universitária. O matemático chegou a São Paulo no dia 27 e foi embora no dia 5.
Hoje professora na USP, a economista Paula Pereda fazia seu doutorado à época e ajudou na organização do congresso. No evento, ela foi incumbida de apoiá-lo na recepção e conduzi-lo às salas. No dia seguinte ao término do evento, recebeu uma nova missão: seria a cicerone do casal Nash em seu último dia na cidade.
Paula se lembra bem do dia. Estava frio e chovendo. Como Alicia havia aproveitado os dias em que o marido estava no congresso para conhecer vários museus, a decisão por um ambiente indoor recaiu sobre a praia paulistana: um shopping. Acabaram no Cidade Jardim.
Ela me contou que mantinha o horário do relógio do carro ajustado uns cinco minutos à frente, uma artimanha para que não se atrasasse aos compromissos. O professor Nash argumentou que aquilo não fazia o menor sentido: o truque não funcionaria diante do fato de que ela própria sabia que o horário estava errado. Paula concordou. Paula ajustou o relógio no dia seguinte.
Essa fixação pelos números era uma constante. O economista Rodrigo Moita, também professor na USP, se recorda que Nash estava o tempo todo com um caderninho à mão, anotando coisas. Em uma das palestras, Rodrigo sentou-se ao lado dele. Não se aguentou: ficou espiando de canto de olho. Para sua surpresa, não eram frases. Nash ficava fazendo conta, com uma letrinha pequena. O tempo todo. O verdadeiro homem que calculava.
Mas não era apenas a matemática que fascinava o gênio norte-americano. Paula diz que ele também demonstrou interesse pela influência indígena no português falado no Brasil, observando de forma especial a presença marcante de tal vocabulário na toponímia paulistana. Era curioso. Perguntava tudo. Paula é grata ao Google, que foi sua tábua de salvação para encontrar as respostas à ânsia curiosa de Nash.
No shopping Cidade Jardim, decidiram passear na Livraria da Vila. Um dos vendedores o reconheceu e pediu autógrafo. Gentil, ele atendeu prontamente. Almoçaram no italiano Due Cuochi, no piso superior do shopping — macarrão e suco natural.
A professora Marilda Sotomayor conheceu John Nash em 1998, em um evento sobre Teoria dos Jogos realizado em Stony Brook, no estado de Nova York. Ao saber da nacionalidade dela, o primeiro assunto trazido por Nash foi futebol — e a famigerada Copa do Mundo que então ocorria na França. A partir de então, passaram a cultivar uma amizade — não foram poucos os reencontros, sempre em eventos acadêmicos.
As conversas sempre ocorriam por e-mail. Marilda me disse que as tentativas de bate-papo via Skype foram infrutíferas. Por conta da medicação para tratar a esquizofrenia, que ele havia tomado por vários anos, o professor convivia com uma sequela: uma leve dificuldade em pronunciar as palavras.
Organizado por Marilda, o congresso internacional de Teoria dos Jogos de 2010 reuniu na Cidade Universitária, além de Nash, outros três prêmios Nobel. Foram 300 participantes, no total. Professor na FEA, o economista Juarez Rizzieri me disse que a palestra do famoso norte-americano não trouxe conteúdo novo, mas reforçou a validade de sua teoria. E que suas colocações foram simpáticas, cordiais.
Para o professor Juarez, incluir Nash na programação foi escolha certa, já que naquela época muitos economistas começaram a olhar para essa teoria para entender se os governos tinham adotado estratégias corretas. Era um momento em que a economia mundial se recuperava após a crise de 2008 e 2009, afinal.
John Nash foi mais do que um palestrante. Foi uma atração. Rodrigo lembra da comoção: as pessoas querendo tirar foto com ele. Ele também comenta o lado pitoresco do famoso cientista. Em um tempo em que todos já usavam softwares como Power Point para fazer as apresentações, Nash ainda preferia seus velhos slides. Isso se tornou uma questão na USP. Precisaram arrumar um já obsoleto projetor para que o professor palestrasse.
A palestra em si não foi nada fácil. Segundo comentários da audiência, Nash era bagunçado. Várias vezes rabiscava com a caneta no slide. O público achava peculiar, tirava foto. Mas, no fundo, tudo foi pouco inteligível.
Não foi a única visita de Nash ao Brasil. Quatro anos mais tarde, A professora Marilda o convidaria novamente para um congresso de Teoria dos Jogos na USP — ele viria apenas com a mulher. Nesta segunda viagem, a professora levou o casal para conhecer Búzios e a cidade do Rio.
John Nash e sua mulher, Alicia, morreram em 23 de maio de 2015 em um acidente de trânsito em Nova Jérsei. Ele tinha 86 anos. Ela, 82. Um mês antes do acidente, ele trocou e-mails com Marilda. Estava empolgado. Tinha acabado de ser convidado para dar uma palestra em um congresso que iria se realizar em Jerusalém.
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