Não é de rir. Nem de chorar. Perplexo, pensei que fosse o fim do mundo. Tive essa incrível sensação, pelo menos, por três vezes, em três ocasiões diferentes.
Primeira vez. Dia 13 de setembro de 1987, uma semana antes do meu aniversário de 22 anos — dois patinhos na lagoa. Sucedia o impensável acidente radioativo do Césio 137, em Goiânia. Eu cursava a graduação em medicina. Depois da abertura da cápsula de Césio, quase ninguém queria vir para Goiás. Quase ninguém tolerava a presença de goianos noutras plagas da federação. Havia gloriosas exceções, contudo. Gente de bom coração. Lembro-me de Moacir Franco cantando “Eu amo Goiânia” numa campanha publicitária para abrandar os temores, os preconceitos e desmistificar os riscos de contaminação. Supostamente, éramos caipiras perigosos, companhias indesejáveis para os brasileiros de outras paragens.
Segunda vez. Dia 11 de setembro de 2001, data do ataque terrorista às Torres Gêmeas, em Nova York. Eu dirigia pela cidade a ouvir o noticiário esportivo, quando, subitamente, o radialista interrompeu o debate futebolístico para anunciar que aviões lotados de passageiros tinham sido arremessados contra arranha-céus na Big Apple, num provável ataque terrorista. Dava para sentir o chão tremer. Foi uma sensação aterrorizante por dentro. Estaria pintando outra guerra?
Terceira vez. Certamente, a pior de todas. Março de 2020, logo após o carnaval, quando a pandemia do COVID finalmente alcançou o Brasil, incluindo-nos num pesadelo global, provavelmente, o mais escabroso desde a Segunda Guerra e o holocausto. Nunca fôramos tão confrontados pelo medo do isolamento, da solidão compulsória e da morte por asfixia. Só de pensar, o meu peito já sibilava. Fraquezas de um asmático. Possuo pulmões covardes.
Alarmes falsos. Demos a volta por cima. A humanidade, para minha completa decepção, não seria extinta. Não naquelas vezes. O script era sempre o mesmo: depois da tormenta, vinha a bonança, o esquecimento e, por que não, o humor ácido. Poderia ter usado a expressão “humor negro”, mas, estaria quebrando um pacto social recente, cometendo uma gafe, uma indelicadeza verbal, um ato falho permeado de espectro racista. Não sou um racista; no máximo, um tolo. E o mundo está cheio deles. Quero mudar. Sem a necessidade de um caminhão baú. A mudança é interior. Quero me adequar aos novos tempos e evitar as expressões chistosas da língua portuguesa, tantas vezes usadas por mim, hoje, consideradas inadequadas e ofensivas.
Lamentar o fato de que a humanidade tenha escapado da dizimação não passa de uma figura de linguagem, sabem como é, coisas de escritor. Sou viciado em hipérboles. E não dou bola para aqueles que nunca leem livros, muito menos, para os que leem, mas, de maneira geral, são incapazes de construir uma decente interpretação de texto. Espero ser mal interpretado. Sinceramente. Não sou niilista, embora, me amarre em Nietzsche e no chope. Schopenhauer. Sou pessimista pra cacete, eu admito, mas, é óbvio que não desejo o fim do mundo, o recall das criaturas requerido, quem sabe, pelo próprio Criador. Alto lá. Tenho parentes, amigos, cobradores e desconhecidos ainda a odiar.
Deitado na sala, sobre o berço esplêndido de um sofá de couro ecológico — aquele tipo de couro que parece couro mas não é couro —, tomando cerveja sem álcool, cerveja sem glúten, acompanho indignado as imagens da destruição bélica propiciada pelo confronto entre os Estados Unidos, Israel e Irã. Sempre os EUA atazanando a vida da gente, julgando-se os xerifes do mundo. As cenas atrozes retiram da pauta o longevo e mortífero conflito entre russos e ucranianos, que transforma a paisagem bucólica de pacatas cidades históricas num amontoado de destroços tristes e de ruínas empoeiradas.
A constatação óbvia é que não aprendemos absolutamente nada com o histórico de desgraças e de atrocidades massivas. E não se poderá alegar a falta de conhecimento de causa, levando-se em conta que os líderes das nações mais poderosas do mundo mantêm o protagonismo intervencionista ao subjugar outros povos, arvorados no cínico verniz da defesa da liberdade, da revanche contra o tráfico mundial de drogas e os grupos terroristas.
A ignorância é um terror. Como escreveu Charles Bukowski, o “Velho Safado”: “Todos nós vamos morrer, que circo! Só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas, não faz. Somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada…”. Safada mesmo é a política de conquista e de dominação há tempos praticada pelos países mais ricos em detrimento da paz mundial.
Poderia estar roubando. Poderia estar matando. Poderia estar stalkeando a pobre da Paolla Oliveira. Adendo: para a minha grata surpresa, a IA vem me informar que Paolla Oliveira é atriz e fisioterapeuta. A fisioterapeuta com a qual os meus bicos-de-papagaio sempre sonharam.
Continuemos. Poderia estar morando na Suíça, o país com o maior IDH do planeta. Não. Não acredito que seria mais feliz lá do que sou aqui. Passando frio nos Alpes Suínos, ou melhor, passando frio nos Alpes Suíços. Bebendo chocolate quente da melhor qualidade. Apreciando as loiras altas, esguias, com tetas monumentais e quadris estonteantes.
Prefiro a Paolla. Ultimamente, em matéria de fé nos desígnios da humanidade, ando derrapando até mesmo nas retas, nas pistas ensopadas com o sangue de homens, mulheres e crianças que pelejam nas mais dantescas zonas de conflito do planeta, infernizados pelos terrores da guerra e pela falta de empatia dos seus semelhantes, nós, os seus irmãos, por supuesto. Só me resta lamentar, relevar esse assombroso revival de selvageria entre as nações.
Procuro na despensa algo mais forte do que cerveja-aguada-que-não-estufa-a-barriga, a fim de melindrar a morte e amortecer os meus pensamentos. Sinto-me incomodado, pois, o cômodo imaterial da casa ri-se de mim: “Nada de álcool por aqui, amigão. Nenhum sinal de epifania à vista. Resta-lhe cair no sono, sob o recurso dos costumeiros analgésicos opioides, a fim de sonhar com um mundo melhor”.
Concluo que melhor mesmo será não beber, mas, escrever uma crônica pacifista com as nuanças de um pastelão. Será que funcionou?
Lamentar o fato de que a humanidade tenha escapado da dizimação não passa de uma figura de linguagem, sabem como é, coisas de escritor. Sou viciado em hipérboles. E não dou bola para aqueles que nunca leem livros, muito menos, para os que leem, mas, de maneira geral, são incapazes de construir uma decente interpretação de texto. Espero ser mal interpretado.
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