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Aos 88 anos, Clint Eastwood entrega um drama poderoso que vai te pegar de surpresa — já na Netflix

Clint Eastwood decidiu que envelhecer não precisa ser sinônimo de silêncio. Preferiu dirigir e se dirigir, como quem teima em lembrar ao mundo que artrite não interfere na postura de ícone. Em ”A Mula”, ele cria Earl Stone: um senhor teimoso que olha para o século digital com o mesmo entusiasmo com que olha para uma fatura atrasada. Quando flores deixam de pagar boletos, Earl troca as estufas por uma picape e aprende o que o capitalismo sempre soube: ilegalidade costuma dar mais lucro do que qualquer virtude.

A história parte de um detalhe tão simples que chega a ser brilhante: ninguém suspeita de um avô que dirige devagar. Ele carrega o peso do país nas rugas, veterano de guerra, horticultor que se recusa a “virar influencer da própria plantação”, e de repente transforma o porta-malas em serviço expresso para um cartel mexicano. Não há glamour, não há adrenalina hollywoodiana: há contas, desculpas familiares e a necessidade quase infantil de ainda ser útil. É essa mistura de precariedade afetiva e sobrevivência financeira que torna sua trajetória tão crível quanto incômoda.

O filme desenha com rigor as brechas morais que permitiram a Earl prosperar. A polícia, munida de tecnologia e arrogância, está sempre ocupada observando perfis “estatisticamente perigosos”, jovens latinos, carros esportivos, tatuagens — nunca um senhor branco que distribui simpatia e tem cheiro de naftalina. Eastwood expõe essa cegueira institucional com uma calma que humilha: o homem mais procurado da investigação está a poucos metros dos agentes, invisível pela camuflagem social de sua idade.

O dinheiro resolve tudo. Ou quase. Enquanto paga dívidas, arruma festas e tenta comprar amor retroativamente, Earl se comporta como quem crê que generosidade monetária cura décadas de ausência emocional. Só que a família, especialmente a ex-mulher interpretada com amargura luminosa por Dianne Wiest, lembra ao público que afeto atrasado chega sem garantias de devolução. A relação deles é o verdadeiro território de conflito, mais complexo que qualquer perseguição policial.

Há algo de provocador na maneira como Eastwood se dirige nesses papéis tardios. Ele assume a fragilidade, mas sem implorar simpatia. Não há autopiedade; há uma sinceridade seca, quase desconfortável. Earl não busca redenção, busca continuidade. Quer seguir dirigindo porque parar seria admitir que o fim está próximo demais. E a estrada, pelo menos, permite adiar certos abismos.

Quando a narrativa se fecha, não estamos diante de lições edificantes. As escolhas tiveram consequências, algumas brandas demais, considerando os crimes cometidos, e ainda assim o filme prefere observar a passagem do tempo do que erguer discursos morais. É justamente essa ambiguidade ética que o torna interessante: a vida raramente pune com exatidão, e muitas vezes premia quem deveria responder à justiça.

Clint Eastwood, aos 88 anos à época das filmagens, faz de ”A Mula” um manifesto pela persistência. Um recado direto: ainda posso, portanto faço. Talvez não seja o título mais marcante de sua carreira, e ele parece ciente disso. Há algo de libertador em assistir a um artista que já provou tudo o que tinha para provar e agora trabalha apenas pelo prazer de permanecer em movimento. Aquelas mãos envelhecidas agarradas ao volante são uma espécie de teimosia vital: enquanto houver estrada, há história.

Filme:
A Mula

Diretor:

Clint Eastwood

Ano:
2018

Gênero:
Crime/Drama/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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