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Antes de escolher o que ver hoje, faça um favor a si mesma: o novo filme de Woody Allen já está no Prime Video

Woody Allen decifra como poucos a arte de misturar assuntos os mais diversos em torno de pessoas que dividem os mesmos lugares, querendo ou não, compondo um universo à parte de todo o mundo que as cerca, girando uns ao redor dos outros, até que principiam os choques, imperceptíveis no começo, mas que ganham força à medida que mágoas, arrebatamentos e frustrações deixam a zona cinzenta e fria em que se escondem e vêm à tona, dando azo a culpas, vexames e uma modalidade muito particular de tédio. Como sói acontecer, em “Golpe de Sorte em Paris” Allen conta uma história de amor, algumas ilusões, muitos desencontros, permeada por glamour. Um dos diretores mais prolíficos do cinema ensina com seu 58° filme que, se viver é quase sempre um desafio, tanto melhor se o encararmos como uma série de possibilidades quanto a absorver cada uma das muitas lições que a vida não se cansa de nos dar, todas de algum modo ligadas ao nosso desajuste em captar o que o mundo a nossa volta nos diz em alto e bom som. Convenhamos, não é pouco.

Fanny e Jean Fournier têm o casamento perfeito. Fanny, ex-Moreau, foi uma garota popular na escola, a ponto de ainda ser reconhecida na rua por colegas daquele tempo, e é o que acontece numa manhã de outono no 7º Bairro, enquanto caminha até o trabalho. Allen lança mão de algumas de suas infalíveis sacadas e vai deslindando o relacionamento pretérito de Fanny, uma marchande em ascensão, e Alain, que batalha um lugar no concorrido mercado editorial europeu, em diálogos saborosos e na dose certa de mordacidade, que situam os personagens na história. Durante a conversa, Fanny conta que casou-se com Jean depois de um romance confuso e que agora tudo parece bem, mas deixa implícito que esperava mais. Era a desculpa de que Alain precisava para tentar uma reaproximação o quanto antes. E ele consegue.

Os dois começam a se encontrar para almoços casuais no parque, sem terceiras intenções, apenas para recordar as anedotas do colégio, até que Fanny aceita conhecer o apartamento de Alain, onde ele lhe prepara um espaguete. Pouco depois, ela confirma o que o escritor já suspeitava, eles se beijam e acabam na cama, mas não serão felizes para sempre. Um clichê nas mãos de um diretor sofisticado como Woody Allen vira um manancial de cenas tragicômicas, às vezes até farsescas, mas nunca gratuitas, levadas por um elenco afinado. O caso de Fanny e Alain é seguido de muito perto pelo cônjuge enganado, que contratou um detetive para ter certeza do óbvio. Allen chega à maturidade suprema realçando sua inabalável descrença no homem, agravada por escândalos pessoais que ocuparam manchetes e brecaram-lhe a carreira por um período. Esperto, suaviza o mal-estar valendo-se da fotografia de Vittorio Storaro e da trilha sonora plena de elementos do jazz, uma velha paixão, composta por Nat Adderley (1931-2000), Milt Jackson (1923-1999) e o Modern Jazz Quartet. Na pele de Fanny, Lou de Laâge tem a graça da musa-mor alleniana, Diane Keaton (1946-2025), ao passo que é impossível não olhar para Niels Schneider sem que nos lembremos de Jean-Paul Belmondo (1933-2021). Contudo, Melvil Poupaud, ora charmoso, ora repugnante como o marido tóxico, é a estrela aqui. “Golpe de Sorte em Paris” é Woody Allen na veia: desajustado, cínico, provocador, beligerante. Para a nossa fortuna.

Filme:
Golpe de Sorte em Paris 

Diretor:

Woody Allen 

Ano:
2023

Gênero:
Romance/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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