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Ame ou odeie: o novo terror que chegou na Netflix e dividiu opiniões

Alguns filmes parecem nascer de uma boa ideia contada rápido demais. “Mergulho Noturno” parte de uma premissa simples e, por isso mesmo, promissora: o medo do que se esconde sob a superfície, a desconfiança diante daquilo que parece inofensivo. Uma piscina suburbana, de aparência impecável, converte-se no epicentro de um mal difuso, e há algo de irresistivelmente banal nisso. O terror não vem de cemitérios ou mansões góticas, mas da água tratada de um quintal. É o medo doméstico levado ao extremo, a tentativa de transformar a segurança da rotina em um pesadelo. Pena que o filme não sustente o mergulho.

O diretor Bryce McGuire flerta com uma alegoria interessante: a piscina como espaço de purificação e perdição, cura e sacrifício. O protagonista, um ex-jogador de beisebol em declínio, descobre que aquele corpo d’água é capaz de devolver-lhe a vitalidade perdida, ao preço de uma vida. A metáfora é clara, quase didática: a masculinidade corroída pela doença e o desejo de restauração através de forças que o ultrapassam. Mas o roteiro parece temer a própria ambiguidade que cria. O que poderia ser um estudo sobre culpa e obsessão vira uma sucessão de sustos previsíveis, embalados pela mesma fórmula PG-13 que transformou o horror comercial num parque aquático de clichês.

Há, contudo, lampejos de tensão bem conduzida. O filme sabe usar o silêncio líquido. Aquela pausa inquietante antes de algo emergir, e o elenco se esforça para dar alguma densidade emocional à trama. Kerry Condon e Wyatt Russell interpretam um casal simpático, mas preso a um texto que os trata como peças de tabuleiro. O drama da doença, a promessa de recomeço, a ameaça que cresce no fundo da piscina: tudo está ali, mas nada realmente pulsa. É como se o filme tivesse medo de ser estranho demais, intenso demais, profundo demais. A cada vez que a narrativa se aproxima de algo perturbador, uma convenção de roteiro aparece com boia na mão, pronta para salvá-la de qualquer risco criativo.

O resultado é um suspense que tenta equilibrar o banal e o sobrenatural, mas não se compromete com nenhum dos dois. Falta ao filme a coragem de mergulhar nas implicações do próprio enredo: o corpo como território de contaminação, o lar como armadilha, o amor como pacto de destruição. Há ecos de “Amityville” e até de “O Chamado”, mas diluídos, domesticados, como se o medo precisasse ser pasteurizado para consumo familiar. McGuire parece compreender o gênero, mas não ousa violentá-lo; e o horror, quando domesticado, perde justamente aquilo que o torna fascinante, a capacidade de incomodar.

Ainda assim, “Mergulho Noturno” tem seu mérito involuntário: expõe, sem querer, o estado letárgico do terror de estúdio contemporâneo. A Blumhouse, entre acertos ocasionais e equívocos cada vez mais frequentes, transformou o susto em produto de linha. O que antes era risco virou método; o que era desconforto virou repetição. E nesse contexto, o filme acaba funcionando como sintoma, não de falha individual, mas de um cansaço coletivo. É o medo em piloto automático, com boa fotografia subaquática e um roteiro que evapora antes do clímax.

“Mergulho Noturno” é menos um mergulho no desconhecido do que uma flutuação superficial sobre temas que poderiam ter sido grandiosos. A água, símbolo de renascimento, aqui se torna metáfora de um gênero que tenta se renovar mas apenas se repete, girando em círculos na mesma piscina rasa. E quando o terror precisa de bóias para não afundar, talvez o verdadeiro susto esteja fora da tela, no vazio de imaginação que ameaça afogar o cinema de horror atual.

Filme:
Mergulho Noturno

Diretor:

Bryce McGuire

Ano:
2024

Gênero:
horror/Mistério/Suspense

Avaliação:

6/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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