Martin Scorsese dirige “Os Bons Companheiros”, com Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci e Lorraine Bracco, a partir do fascínio de Henry Hill pelos mafiosos do Brooklyn. Ainda menino, Henry começa a fazer pequenos serviços para Paulie Cicero, aproxima-se de Jimmy Conway e Tommy DeVito e entra num mundo em que carros, restaurantes, dinheiro, ternos e proteção parecem mais atraentes do que qualquer vida comum. O impulso é quase infantil, mas já vem carregado de cálculo. Henry olha da rua para aquele universo e decide que quer morar ali.
Scorsese acompanha essa ascensão sem separar deslumbramento e ameaça. O caminho que leva Henry dos recados de bairro a golpes maiores ao lado de Jimmy e Tommy também o empurra para um cotidiano em que a violência aparece à mesa, no bar, no clube e no carro, como se fizesse parte do trabalho. Nada ali permanece firme por muito tempo. A posição ambígua de Henry, meio irlandês e meio siciliano, reforça a tensão entre pertencimento e limite, já que ele circula por esse meio com intimidade, mas nunca completamente protegido por ele.
Uma das grandes qualidades de “Os Bons Companheiros” está em transformar prestígio social em gesto visível. Quando Henry conduz Karen pelo “Copacabana” pela entrada de serviço, atravessando corredores e cozinha até chegar a uma mesa privilegiada, Scorsese não precisa explicar o magnetismo daquele mundo, porque ele já está no percurso, no espaço e na facilidade com que tudo se abre diante do casal. Basta aquele caminho pelos fundos. Karen entra na vida de Henry por essa porta de sedução e risco, dividindo com ele não só o conforto material, mas a convivência com regras internas, brutalidade casual e a sensação de que tudo pode virar de uma hora para outra.
Tommy concentra esse perigo de modo exemplar. Impulsivo, instável e capaz de transformar uma brincadeira em ameaça real, ele define a temperatura do grupo, sobretudo nas cenas de mesa e restaurante, em que humor e medo ocupam o mesmo lugar e ninguém sabe ao certo quando o riso vai secar. Jimmy, por sua vez, aparece como figura mais calculista, ligada aos roubos, aos esquemas grandes e ao verniz profissional do crime, enquanto Henry oscila entre admiração, conveniência e cegueira voluntária. Os três se entendem pelo risco. A convivência deles forma uma amizade atravessada por interesse, excitação e medo, sem qualquer conforto sentimental.
Karen é decisiva porque impede que a história fique fechada no clube dos homens armados. Ao entrar nesse cotidiano de bares, casas, festas e dinheiro fácil, ela também se vê enredada pela mistura de luxo, intimidação e medo que cerca Henry, o que leva o filme para dentro da vida doméstica e amorosa e amplia o peso daquilo que parecia apenas aventura de rua. O brilho tem sempre alguma sombra. Scorsese mostra que a sedução da máfia não depende só de tiros ou golpes, mas também da sensação de privilégio, de acesso, de fila furada, de mesa arrumada, de gente que abre caminho antes mesmo que alguém peça.
Com o passar dos anos, o envolvimento de Henry com drogas e negócios mais perigosos acelera a corrosão do que antes parecia sólido. A pressão policial cresce, a confiança entre comparsas se desgasta e a montagem febril das etapas finais transforma cidade, carro, casa e rua em espaços de paranoia, cansaço e perda de controle, como se a vida inteira tivesse começado a correr rápido demais. Tudo fica mais curto e mais tenso. “Os Bons Companheiros” segue notável porque entende a vida mafiosa como sistema de sedução antes de tratá-la como ruína, e por isso a queda nunca apaga o prazer que veio antes. No fim, ficam um carro parado, uma porta batendo e Henry tentando ouvir passos antes que eles cheguem.
Filme:
Os Bons Companheiros
Diretor:
Martin Scorsese
Ano:
1990
Gênero:
Biografia/Crime/Drama
Avaliação:
9/10
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Marcelo Costa
★★★★★★★★★★
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