BERLIM — O presidente Donald Trump disse nesta quarta-feira que está cancelando as ameaças de tarifas que havia feito na tentativa de garantir a propriedade da Groenlândia pelos Estados Unidos, afirmando ter chegado a um acordo de princípios com Mark Rutte, secretário-geral da Otan, sobre o futuro do gelado território dinamarquês.
Escrevendo na Truth Social, Trump disse na noite de quarta-feira que ele e Rutte “formaram o arcabouço de um futuro acordo no que diz respeito à Groenlândia e, na verdade, a toda a Região do Ártico. Essa solução, se for concretizada, será excelente para os Estados Unidos da América e para todas as nações da Otan”.
O anúncio veio após uma reunião da Otan na quarta-feira, em que altos oficiais militares dos países-membros da aliança discutiram um compromisso segundo o qual a Dinamarca daria aos Estados Unidos soberania sobre pequenas porções de terra na Groenlândia, onde os EUA poderiam construir bases militares, segundo três altas autoridades familiarizadas com a discussão.
Oportunidade com segurança!
As autoridades falaram sob condição de anonimato para discutir um assunto diplomático sensível e disseram que a ideia vinha sendo defendida por Rutte. Duas delas, que estiveram na reunião, compararam a proposta às bases do Reino Unido em Chipre, que são consideradas território britânico.
As fontes disseram não saber se essa ideia faz parte do arcabouço anunciado por Trump. Questionada sobre o acordo e seu conteúdo, a Otan afirmou em comunicado que “as negociações entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos seguirão com o objetivo de garantir que Rússia e China nunca consigam se estabelecer — econômica ou militarmente — na Groenlândia”.
Trump não deu detalhes imediatos sobre esse arcabouço e, de forma notável, não afirmou que os Estados Unidos seriam donos da Groenlândia, mesmo quando questionado diretamente sobre a propriedade por um repórter em Davos, na Suíça, pouco depois de publicar o anúncio. Rutte e as lideranças da Dinamarca também não divulgaram detalhes. O gabinete da primeira-ministra dinamarquesa não respondeu de imediato a um pedido de comentário.
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A notícia do arcabouço surgiu poucas horas depois de Trump dizer a líderes europeus em Davos que não aceitaria nada menos do que os Estados Unidos assumirem a propriedade da Groenlândia — embora tenha retirado a ameaça de invadir o território. Trump havia prometido graves consequências econômicas e de segurança para a Europa se não fosse atendido.
Mais cedo, ao discursar para uma plateia cheia de chefes de Estado, bilionários e outros líderes globais, Trump repetiu diversas vezes que os Estados Unidos precisam da Groenlândia por razões de segurança nacional. Disse que só os EUA têm força para defender a ilha de ameaças externas e que essa defesa só faria sentido se o país fosse seu proprietário.
Ele pediu “negociações imediatas” para discutir a transferência de propriedade da ilha semiautônoma da Dinamarca para os Estados Unidos e ironizou países europeus, dizendo que se tornaram irreconhecíveis em relação à “antiga beleza” e que dependem dos EUA. “Sem nós, a maioria desses países nem funciona”, afirmou Trump.
O dia resumiu a abordagem de segundo mandato de Trump ao poder global e à formulação de políticas: alternar entre pressionar e humilhar antigos aliados próximos em busca de um objetivo que o presidente parece enxergar como peça central de seu legado.
“Provavelmente não vamos conseguir nada, a menos que eu decida usar força excessiva, uma força com a qual seríamos, francamente, imparáveis”, disse Trump. “Mas eu não vou fazer isso. Essa provavelmente é a maior afirmação, porque as pessoas achavam que eu usaria força. Não preciso usar força. Não quero usar força. Não vou usar força. Tudo o que os Estados Unidos estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia.”
Poucos instantes depois, porém, Trump emitiu ameaças explícitas e implícitas a líderes europeus caso não atendessem seus desejos. Ele lembrou à plateia que havia taxado unilateralmente importações para os EUA vindas de países da Europa e de outras regiões, e já havia ameaçado aumentar tarifas sobre a Dinamarca e outros países europeus que defendem a manutenção da ilha sob soberania dinamarquesa.
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Como costuma acontecer no delicado relacionamento com Trump, alguns líderes europeus reagiram ao que consideraram a nota mais positiva do discurso — a promessa de não usar tropas — e manifestaram esperança de chegar a um compromisso sobre o futuro da Groenlândia.
Rasmus Jarlov, presidente da comissão de Defesa do Parlamento dinamarquês, disse em entrevista que “já ouvimos coisas bem piores” de Trump.
“Fico feliz que ele tenha descartado o uso de força militar”, afirmou Jarlov. “Não vi nas declarações de hoje uma escalada. Ele insiste que quer a Groenlândia, mas isso não é novidade. É claro que nós continuamos insistindo que não vamos entregar a Groenlândia.”
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No entanto, Trump deixou pouca margem para compromisso em seu discurso. Muitos líderes europeus repetem que não podem cogitar ceder a propriedade da Groenlândia aos Estados Unidos, mas também afirmam estar abertos a praticamente qualquer outro arranjo que amplie a presença americana na ilha. Na quarta-feira, Trump reiterou que isso não basta.
“Você precisa da propriedade para defendê-la”, disse. Um momento depois, acrescentou: “Quem diabos quer defender um acordo de licença ou um contrato de arrendamento?”
c.2026 The New York Times Company

