Elle Reid e sua neta, Sage, precisam de 630 dólares. Elle, uma poetisa septuagenária e famosa nos círculos feministas da América pós-Vietnã, perdeu Violet, a companheira, depois de uma união de quatro décadas, rompeu com a namorada Olivia, trinta anos mais nova, por achá-la bonita demais, e há algum tempo não tem nenhum contato com Judy, a filha única, de personalidade em nada parecida com a dela. Apesar de encrencada, Sage aparece como uma salvadora para essa hippie tardia e as duas entregam-se a uma insana jornada até conseguirem alcançar seu objetivo. É difícil de acreditar, mas em oitenta minutos “Aprendendo com a Vovó” lembra uma odisseia sobre recomeços, enganos, boas intenções para maus propósitos e sabedoria involuntária, urdida a partir de diálogos mordazes e atuações certeiras. Despretensioso, o roteiro do diretor Paul Weitz levanta um rol de discussões que abrangem a maioria da humanidade embrulhadas num assunto espinhoso por natureza; quem mira o todo, porém, ganha por recompensa valiosas lições.
Sage engravidara de um namoradinho cafajeste e bate à porta de Elle atrás do dinheiro para custear um aborto, embora fosse mais lógico procurar Judy em seu escritório chique — incômodo que Weitz trata de desfazer na virada do segundo para o terceiro ato. Como foi dito, Elle é muito diferente de Judy e tem apenas quarenta dólares que somados aos dezoito da neta não chegam a dez por cento do montante necessário. O procedimento foi marcado (nunca se fica sabendo o porquê) para as 17h45 daquele mesmo dia, então a garota precisa ter o resto da bolada em cerca de oito horas, obrigando-as a saírem pelas ruas de alguma cidade da Califórnia no Dodge preto deixado por Violet em busca da solução radical. A primeira tentativa é ir até o Bonobo, o café-livraria de Carla, a fim de vender um exemplar autografado da primeira edição de “A Mística Feminina” (1963), de Betty Friedan (1921-2006). Ela quer seiscentos dólares pelo que considera uma relíquia, com alguns outros volumes de brinde, e como a anfitriã se dispõe a pagar sessenta, tem início um bate-boca homérico, com a participação de Olivia, a garçonete do estabelecimento, vivida por Judy Greer. Habilidoso, Weitz tira todo proveito que consegue das grandes atrizes que o cercam, reservando a Elizabeth Peña (1959-2014) e Colleen Camp hilários momentos de comédia nonsense. Quandoterminam, passam no estúdio de tatuagem de Deathy, de Laverne Cox, que jamais devolveu a Elle as quatrocentas pratas que pedira como empréstimo para remover o silicone industrial das mamas. As amigas resolvem a cizânia com um novo desenho no ombro do último bastião da contracultura, e a saga vai adiante.
O diretor fraciona a história em capítulos, e o mais dramaticamente mais bem estruturado é sem dúvida “O ogro”. Elle lembra-se de Karl, um velho conhecido com quem manteve uma relação amorosa, e os dois tem um acerto de contas tão libertador quanto traumático. Elle, que não sabia muito bem do que gostava, o trocara por Violet, e Karl finalmente percebe que a antiga parceira foi para ele um mero passatempo, um passatempo custoso. Karl coleciona namoradas, filhos e netos, mas não esquece o amor de juventude, que, ele acha, tem a chance de recuperar agora, por meio de uma proposta indecente. Weitz desvia um tanto o foco do enredo, dedicando uma generosa parte de seu filme ao talento seguro de Sam Elliott, que tem o condão de fazer a audiência esquecer o alvo de “Aprendendo com a Vovó”. Quando volta ao eixo, o diretor-roteirista proporciona à audiência um espetáculo de sensibilidade ao unir Elle às duas mulheres de sua vida, num lampejo de estética e clareza como poucas vezes encontra-se em Hollywood hoje.
Lily Tomlin e Julia Garner brilham na pele de avó e neta tão semelhantes e opostas a um só tempo. A veterana monopoliza os olhares valendo-se de uma interpretação enxuta, avessa a rótulos, e só manda bolas redondas para Julia Garner cortar com classe, numa mistura de vulnerabilidade e truculência malcriada. Marcia Gay Harden, contudo, é quem rouba a cena, como a mãe bruxa que esperava a ocasião ideal para regenerar-se, num retrato perturbador de quão ambíguo o ser humano é. Cheio de lances deliciosos e surpreendentes, é impossível não gostar de “Aprendendo com a Vovó” — malgrado a defesa sub-reptícia da interrupção de gravidezes como remédio para decisões equivocadas. Joan Didion (1934-2021) haveria de concordar.
Filme:
Aprendendo Com a Vovó
Diretor:
Paul Weitz
Ano:
2015
Gênero:
Comédia/Drama
Avaliação:
9/10
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Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★
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