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Acabou de estrear na Netflix: Luca Guadagnino adapta William S. Burroughs em viagem onírica, tropical e inquietante

A cada filme, Luca Guadagnino prova que é um dos diretores mais subversivos do cinema atual. A disrupção de Guadagnino é assumidamente panfletária em “Queer”, um de seus trabalhos mais criativos e maduros, em que brinca de ir misturando gêneros e histórias, com um toque confessional. Imagens homoeróticas, o kitsch e a inquietação social enfrentam aqui o rescaldo fascista dos anos 1950 numa batalha inglória e vesana, numa busca renhida por liberdade. Adaptado por Justin Kuritzkes, roteirista de “Rivais” (2024), também de Guadagnino, “Queer” é inspirado no romance homônimo (e meio autobiográfico) de William S. Burroughs (1914-1997), escrito em 1952 como uma introdução ao polêmico “Junkie” (1953) — esquecido por Burroughs depois que este experimentara a censura da própria editora — e finalmente publicado em 1985. Uma das razões que explicam um enredo tão ácido.

Um carrossel de referências

Guadagnino junta Oscar Wilde (1854-1900), Bertold Brecht (1898-1956) e Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) numa algaravia de vozes que estranhamente se complementam. William Lee personifica esse mosaico de almas em perpétuo martírio, ainda que jamais deixe que ninguém sinta-lhe pena, encarando rodadas e mais rodadas de jeropigas de má procedência e doses generosas de heroína. Bill continua um homem vistoso, mas tem sido obrigado a admitir que seu tempo já era, então não tem nada a perder e não alimenta mais qualquer ilusão de sucesso tardio como escritor. Definha, mas faz questão de manter o costume de lançar olhares e tiradas matadoras para os jovens que passam as noites num bar da Cidade do México, esperando uma oportunidade de vencer. Atento, o diretor esquadrinha as terceiras intenções de seu personagem central, mostrando-o como uma figura patética, grotesca até, sensação que se intensifica quando Bill conversa com seu melhor amigo, Joe Guidry, do sempre carismático Jason Schwartzman. Eugene Allerton, um americano meio sem rumo, tem provocado sua libido indócil, e esse é o início de uma saga. 

Romance e psicodelia

Bill e Eugene acabam por se aproximar, vivendo um namoro nem tão ardente, dançando no escuro, em cadências paralelas. “Queer” vai ganhando um tom neo-noir que remonta “Morte em Veneza” (1971), a versão cinematográfica de Luchino Visconti (1906-1976) para o roman à clef publicado por Thomas Mann (1875-1955) em 1912, malgrado Visconti consiga dar a seu filme uma certa ingenuidade, de que Guadagnino quer distância. A angústia de Bill é de outra natureza, e sem dúvida é agravada pelo vício, e conforme a narrativa avança, seu caso com Eugene ganha a força de mais um opioide. Há que se louvar a habilidade de Daniel Craig nessas transições, em especial depois de ter dado vida a ninguém menos que James Bond e sua virilidade inabalável. Craig mantém a beleza absurda do longa, levantando a bola para Drew Starkey, e saindo bem até frente à performance endiabrada de Leslie Manville, na pele da bruxa que detém o poder sobre uma substância alucinógena que Bill pensa ser a solução para sua vida descartável. Guadagnino é mestre em apresentar ao público modalidades curiosas de melancolia e desertos existenciais, e “Queer” é capaz de perturbar nossas certezas sem cerimônia. Esse é o verdadeiro barato. 

Filme:
Queer

Diretor:

Luca Guadagnino

Ano:
2024

Gênero:
Drama/Romance

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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