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Acabou de estrear na Netflix e está criando um hábito estranho: todo mundo pausa na mesma hora

A premissa de “Abigail” chega sem rodeios. Um grupo de criminosos aceita um trabalho de alto valor: sequestrar uma bailarina de doze anos, filha de uma figura poderosa do submundo, e manter a garota sob controle durante uma noite numa mansão isolada enquanto o resgate é negociado. O começo é direto, e o roteiro se interessa pelo detalhe do serviço. Quem amarra, quem vigia, quem circula, quem tenta estabelecer regras. Cada movimento custa tempo e energia — e depende de acordos curtos, frágeis, desses que se desfazem no primeiro atrito.

O filme engrena quando a vigilância deixa de parecer tarefa simples e vira problema de coordenação. O que antes “dava para improvisar” passa a pedir dupla checagem. Rotas internas precisam ser pensadas, não só percorridas. A comunicação perde consistência quando cada um decide agir por conta própria, e a mansão se impõe como mais do que cenário: ela vira desgaste. Para atravessar um espaço grande demais com gente nervosa demais, você precisa de luz na mão, ouvido atento e uma disposição que vai sumindo a cada nova porta. Até aqui, “Abigail” entrega suspense e já aponta a mistura de terror e comédia sem empilhar explicação.

Lanternas e portas trancadas

Melissa Barrera é quem puxa o conjunto para o chão. Ela compõe alguém tentando manter a cabeça no lugar enquanto a noite cobra no corpo: fome, tremor fino, respiração curta, aquela necessidade de parar por um segundo e escutar antes de encostar na maçaneta. Ela funciona melhor nos intervalos — nos momentos de cálculo rápido: medir distância, testar uma fechadura, escolher se vai sozinha ou se chama alguém. A interpretação segura o filme perto do humano, mesmo quando a situação já exige decisões que ninguém tomaria com calma.

O humor mais afiado aparece quando o grupo se desfaz por dentro. Não é só susto: é vaidade ferida, disputa por comando, gente que se vende como “equipe” e, na primeira madrugada ruim, começa a tratar informação como moeda. Quando alguém some, não há discurso; há contagem apressada, busca atravessada, dedo apontado. E a tentativa quase ridícula de economizar energia — poupar a carga do celular, racionar a luz, “não gastar” passos — como se isso comprasse mais meia hora de controle. A risada sai curta porque o que resta é admitir: todo mundo está errando junto, e rápido.

Dan Stevens entra como componente de instabilidade, alguém confortável demais em mandar — e, por isso mesmo, chamativo quando o plano sai do trilho. Ele trabalha um carisma meio venenoso, com sorriso que promete segurança e logo depois empurra os outros para correr por ele. Em vários trechos, sua presença melhora o filme por tornar visível o custo de “liderar” em crise: discutir, levantar a voz, atrasar decisões, obrigar alguém a refazer caminho para buscar outra pessoa. O comando vira peso, não solução.

Corredores, fechaduras e bateria

A direção de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett é mais eficiente quando precisa organizar gente em espaço fechado. O filme cresce ao desenhar posições e trajetos: quem está na sala, quem está no andar de cima, quem ficou preso a uma porta que não cede, por que alguém não chega a tempo. Muitas cenas se sustentam por pequenas ações: mão na maçaneta, passo contido para não denunciar presença, feixe de luz oscilando ao virar uma esquina. O medo nasce do risco de escolher a passagem errada, perder um aliado por segundos, ficar sem acesso a uma saída que parecia óbvia.

Quando tenta acelerar demais, “Abigail” paga com repetição de correria e berros, e alguns personagens soam como peças feitas para completar a planilha do grupo. Há diálogos que sublinham o que o corpo já contou: alguém cansado demais para argumentar, alguém nervoso demais para esperar. Ainda assim, o conjunto se recupera porque a narrativa volta sempre ao mesmo tipo de consequência concreta: fôlego, confiança, capacidade de combinar uma ação simples sem transformar tudo em briga. O filme prefere a punição imediata ao sermão — e isso mantém a atenção mesmo quando uma cena poderia terminar antes.

Vale notar como a mansão obriga o filme a insistir no cotidiano do sequestro. Vigiar parece fácil até virar turno quebrado, cochilo interrompido e retorno ao ponto de partida por causa de uma chave, uma tranca, um objeto que “ninguém pegou”. A cada tentativa de reorganizar a equipe, alguém puxa para um lado, outro se recusa a obedecer, e o plano — já frágil — vira um vaivém que gasta sola e queima energia mental. Nessas horas, a comédia não nasce de piada; nasce de nervo. Manter pose de “profissional” só atrapalha quando o corpo pede pausa e a cabeça falha na contagem de portas.

Como terror com pitadas de comédia, “Abigail” entrega um passeio eficaz e, em vários trechos, cruel com seus criminosos, que precisam escolher entre agir juntos ou sobreviver cada um por si. Não é um filme delicado: é um filme de sobrevivência em que o erro se paga na hora e a organização vira o primeiro luxo a cair. Para quem gosta de histórias em que a noite vira teste de nervos e coordenação, há material suficiente para sair do cinema sentindo o peso de uma madrugada mal dormida — lembrando do feixe tremendo na mão e do clique de uma fechadura que demora a ceder.

Filme:
Abigail

Diretor:

Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

Ano:
2024

Gênero:
Ação/Comédia/Crime/Drama/horror/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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