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Acaba de estrear na Netflix o documentário sobre o misterioso assassinato de um dos homens mais ricos do mundo

“Mônaco é quase uma república das bananas”, diz Isabel Vincent numa das sequências finais de “Assassinato em Mônaco”, o documentário sobre a morte brutal e, à primeira vista, nebulosa de um dos homens mais ricos do mundo — à primeira vista, reforce-se. Ao longo da hora e meia do filme, porém, o diretor Hodges Usry mostra que onde há fumaça há fogo, sim, e que o argumento da jornalista canadense nunca fora desabusado o bastante para que se retirasse da cena do crime um personagem cheio de incoerências e sortilégios, que poderia iluminar alguns pontos cegos de uma trama escabrosa. Os bastidores do assassinato do bilionário judeu-sírio naturalizado brasileiro Edmond Jacob Safra (1932-1999) desdobram-se em camadas mais e mais densas e aterradoras, até que o cerco se fecha e o jogo de um psicopata chega ao fim.

Em três de dezembro de 1999, Safra, dono de vários bancos pelo mundo, incluindo o Republic National Bank of New York, nos Estados Unidos, e, com uma fortuna avaliada em 2,5 bilhões de dólares, e uma de suas enfermeiras, Vivian Torrente, foram encontrados mortos na luxuosa cobertura do edifício Belle Époque, sede do banco que leva o nome da família, em decorrência de um incêndio. Se o caso é escandaloso até mesmo para os padrões do Brasil, com sua taxa de homicídios de 21,2 por cem mil habitantes, no principado não havia ninguém que não tenha ficado em choque ao pensar que homens encapuzados invadiram aquele palacete suspenso, protegido por câmeras de segurança e vigilantes empunhando armas de grosso calibre e espalharam o terror a um homem idoso, sofrendo as agruras do mal de Parkinson, e sua assistente. Usry recupera imagens e o que foi publicado sobre o episódio naquele período, mas, por óbvio, são as declarações de juristas, profissionais de imprensa e gente com algum vínculo junto aos Safra que dão ao trabalho do diretor a aura de um true crime necessário. Inclusive o próprio assassino. 

Ted Maher, um suposto ex-oficial dos Boinas Verdes, era o outro enfermeiro de plantão na noite dos assassinatos, e suas intervenções são uma mistura de delírios de grandeza e autoelogios infantis, patéticos. Segundo Maher, dois invasores conseguiram vencer o esquema de patrulhamento mantido por Safra e chegado às dependências do imóvel. O funcionário teria avançado sobre os bandidos, que o esfaquearam na coxa e no abdômen, enquanto o patrão e a colega esconderam-se num cômodo blindado, levando o telefone de Maher. Tudo parecia encaminhar-se para um desfecho admissível, não fosse a vaidade megalômana do enfermeiro. Na intenção de acionar o alarme, Maher queimou papéis numa lixeira, e em minutos as labaredas varreram tudo. Mas o que é ruim sempre ficar pior.

Depois de ter admitido a autoria do incêndio, Maher voltou atrás, dizendo que sua confissão estava em francês, idioma que ele não domina. A minuciosa pesquisa de Usry provou que o documento fora antes traduzido para o inglês, e após dois anos detido, ele foi condenado a dez anos de prisão. Até hoje, Maher insiste na hipótese de que Safra fora exterminado por ordens de Vladimir Putin, porque o banqueiro teria delatado uma rede de lavagem de dinheiro da máfia russa. Tudo é ainda mais melancólico quando se ouve Vincent. Nos infames “Gilded Lily: Lily Safra: The Making of One of the World’s Wealthiest Widows” (“lírio dourado: Lily Safra: a ascensão de uma das viúvas mais ricas do mundo”, em tradução literal; 2010) e “Dinner with Edward: A Story of an Unexpected Friendship” (“jantar com Edward: a história de uma amizade inesperada”, idem; 2016), a jornalista, sem nenhuma evidência, insiste na tese de que a esposa de Edmond Safra foi a mandante, e teve o livro banido no Brasil, país natal da filantropa, morta em 2022. Atualmente, Vicky, a viúva de Joseph Safra (1938-2020), irmão de Edmond, e seus filhos figuram entre as pessoas mais endinheiradas do Brasil e do mundo. Vicky é listada como a mulher mais rica do Brasil segundo levantamento da revista “Forbes” em 2025, com um patrimônio de R$ 120,5 bilhões. 

Filme:
Assassinato em Mônaco 

Diretor:

Hodges Usry

Ano:
2025

Gênero:
Crime/Documentário

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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