São oito horas da manhã. Solstício de inverno no hemisfério sul. Uma velha mulher toma sol no quintal de casa. Um banho solitário sob a solícita luz do dia. Só ela sabe o que se passa em pensamentos. Ao contrário do astro-rei, que a todos ilumina indistintamente, não é capaz de compartilhar o que sente para além da cabeça doendo, do chão faltando e da desagradável sensação do coração batendo em descompasso. Passeio os olhos sobre a indecifrável fotografia tirada recentemente. No que pensa a senhorinha? No novelo das noventa primaveras vividas? No apagamento da alma que espreita o corpo franzino? O que será a morte afinal? Será que viveu? Ela raramente se manifesta. No mais, quem, além de um escritor, haverá de arguí-la em silêncio sobre o que pensa ou sobre o que deixa de pensar a respeito da própria existência nessa altura dos acontecimentos? Perdeu sete centímetros na estatura. Feito uma rosa do canteiro, murcha e definha. No entanto, supõe-se que ama a vida, pois, se esmera em cuidados. Não negligencia medicamentos. Bebe dois litros de água ao dia. Aprimora os hábitos alimentares. É elementar que não sinta fome o suficiente. A expectativa de que haja eternidade após a morte retroalimenta a sua gana em viver. Ou não. Quem vai saber. Ela não se abre como os raios de sol num céu de brigadeiro. Cortou o açúcar. Parou de voar. Os músculos atrofiam-se na mesma medida em que a fé aumenta. Mora a cem passos da igreja, mesmo assim, prefere assistir à missa pela TV. Tem sempre alguém de confiança por perto para ajudar na doação de dinheiro pelo QR Code do smartphone. Não se julga esperta. Não está familiarizada às tecnologias de ponta. Tem medo de cair de ponte, de cair em golpe, de quebrar o fêmur e de perder todas as economias. Foi uma das diaristas quem a fotografou. Sol na medida certa sobre a pele seca e apergaminhada dos braços e das pernas. Passa bem a sua mãezinha, escreve a funcionária. Carregou sozinha o tamborete e foi se aquecer no pomar ensolarado, junto com os passarinhos. Tem falado um quase nada. No cabo de guerra contra o enorme aneurisma, uma das cordas vocais arrebentou. Acometida pela rouquidão permanente, pede que a ajudante descongele uma carne. Tem desejo de fígado acebolado para o almoço. Ótima iguaria para dar sustância e para combater anemia. Carece de convalescer depressa para rever as amigas do Centro Livre de Artes, órgão gerido pela secretaria de cultura do município. Sempre às quintas-feiras pela manhã. Quando pratica alongamento. Aprimora o equilíbrio. Declama poemas. Cola papéis. Escuta palestras. E dança ritmos compatíveis à idade com outras mulheres igualmente velhas, lentas e desequilibradas. Não há um só homem na turma. A maioria deles já morreu. Os que restaram ficam em casa e agem como se não se importassem. São mais pragmáticos, negligentes e pessimistas. Talvez, o seu comportamento indolente justifique o fato de morrerem primeiro, como o sol que se põe mais cedo, nos curtos dias do solstício de inverno na América do Sul.