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A vida de William S. Burroughs pelo olhar delicado e passional de Luca Guadagnino, na Netflix

“Queer”, dirigido por Luca Guadagnino, acompanha Lee, personagem de Daniel Craig, um ex-militar americano que tenta reorganizar a própria vida na Cidade do México dos anos 1950 depois de ser dispensado da Marinha. Vivendo com o auxílio do GI Bill, ele circula entre bares, pensões e mesas ocupadas por estudantes e outros expatriados que, como ele, sobrevivem de trabalhos temporários e de um passado que ainda pesa. O que move Lee não é apenas a necessidade de dinheiro ou abrigo, mas uma solidão persistente que nenhum copo ou conversa consegue dissolver.

Craig interpreta Lee com uma mistura de rigidez e vulnerabilidade que impressiona. Ele anda como quem ainda carrega a disciplina militar nos ombros, mas o olhar denuncia alguém à deriva. Quando conhece Allerton, vivido por Drew Starkey, algo muda. Allerton é mais jovem, mais contido, e parece sempre medir o quanto se entrega. Lee se apaixona rápido, aposta alto e passa a organizar seus dias em função dessa aproximação. Ele convida, insiste, tenta impressionar. Só que o sentimento não depende apenas da intensidade de um lado.

A relação entre os dois é feita de avanços e recuos. Allerton aceita a companhia, mas mantém certa distância, como se soubesse que cada gesto público tem peso. A Cidade do México, com seus bares cheios e quartos apertados, oferece anonimato e risco ao mesmo tempo. Lee quer transformar encontros em algo mais sólido; Allerton parece negociar cada passo. Essa diferença cria tensão constante, não explosiva, mas contínua, quase silenciosa.

Jason Schwartzman surge nesse ambiente como parte do círculo de americanos que orbitam Lee. Seu personagem observa, comenta, às vezes aconselha, sempre com uma ironia leve que traz um respiro à trama. Ainda assim, ninguém ali tem respostas prontas. Todos estão tentando sobreviver: financeiramente, emocionalmente, socialmente. O benefício do governo garante algum fôlego a Lee, mas também funciona como lembrete de que seu tempo ali não é infinito.

Guadagnino filma essa história com atenção aos detalhes do cotidiano. Não há grandes discursos; há olhares demorados, silêncios constrangedores, conversas que começam promissoras e terminam ambíguas. A câmera parece interessada menos em explicar e mais em acompanhar o desgaste de quem ama mais do que pode controlar. O desejo aqui não é romântico no sentido idealizado. Ele é urgente, às vezes desconfortável, sempre exposto.

O que mais me chamou atenção é como “Queer” transforma uma história íntima em algo universal sem perder a especificidade do contexto histórico. Estamos nos anos 1950, num ambiente em que ser quem se é exige cálculo constante. Lee não luta contra um vilão claro; ele enfrenta limites sociais, inseguranças próprias e a imprevisibilidade do outro. Daniel Craig entrega talvez uma de suas atuações mais vulneráveis, distante de qualquer imagem de invencibilidade, enquanto Drew Starkey sustenta o mistério de Allerton com uma contenção que intriga.

O filme constrói um retrato honesto de alguém tentando amar e ser amado quando tudo ao redor parece provisório. “Queer” é menos sobre escândalo e mais sobre fragilidade. E justamente por isso dói, porque mostra que, às vezes, o maior risco não é ser rejeitado pelo mundo, mas não saber onde encaixar o próprio coração.

Filme:
Queer

Diretor:

Luca Guadagnino

Ano:
2024

Gênero:
Biografia/Drama/História/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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