Velha como o mundo, a vingança nasce da dor, da humilhação, de feridas abertas, movendo-se entre a justiça e a perdição. Há quem pense a vingança como uma chance qualquer que o universo dá ao homem para que se restabeleça o equilíbrio diante de uma iniquidade, porém todos sabemos que, mesmo quando exitosa, ela deixa um rastro de destruição até que se consuma. O alívio que uma vingança pode oferecer não raro marca para sempre, endurece os corações e cega as mentes, alcançando muito além daquele que desencadeia o mal, e o efeito disso é um permanente ciclo de tragédias. Institucionalizou-se a desforra como um sistema que garante a honradez, mas o vingador, preso em seu próprio martírio, obriga-se a conviver com uma inexpugnável sensação de guerra íntima, sem paz no horizonte. A reparação exige que preparemos dois jazigos, como diz Confúcio (551 a.C. — 479 a.C.), e essa é a ideia central em “Duas Covas”, a série em três episódios na qual o romancista espanhol Agustín Martínez conta a saga de uma avó determinada a saber o que aconteceu com a neta, desaparecida em circunstâncias misteriosas. Kike Maíllo, vencedor do Goya de Melhor Diretor Revelação por “Eva — Um Novo Começo” (2011), contrapõe imagens que sugerem beleza e horror, liberdade e tirania, levando a uma pergunta matadora.
De um piano salpicado de sangue emana um som mavioso, conduzido por mãos experientes. Pouco depois, essas mãos arrastam um corpo, e essa é a grande pista para se chegar ao mistério em “Duas Covas”. Isabel e sua neta Veronica são como uma só alma, sem o menor pejo de manifestar sua afinidade sempre que possível. Quando não estão juntas, Veronica frequenta a casa de Marta e as duas saem por Frigiliana, armadas do destemor excessivo da juventude. No fim da noite, elas vão subindo uma ladeira, cansadas, e pedem carona a um rapaz que está por ali. O sol raia, o dia avança, elas não aparecem e a partir de então Maíllo passa a aprofundar-se nas evidências de um possível homicídio, inédito o bastante para escandalizar os habitantes da bucólica cidadezinha. Antonio, o pai de Veronica, suspeita que o desaparecimento das garotas tenha alguma relação com Rafael Salazar, pai de Marta e mandachuva de uma organização criminosa, e à medida que os policiais realizam as buscas e verificam que apenas o cadáver de Marta é resgatado, mais indagações vêm à tona.
Passam-se dois anos desde o sumiço de Veronica e Marta, e como não se tem nenhum fato novo, o caso é oficialmente encerrado. Isabel poderia ver em Zaera, a investigadora-chefe vivida por Joan Sole, uma aliada, mas conforme a história toma corpo, desponta uma informação surpreendente, guardada com todo o esmero pelo diretor. Envolvente, a atuação de Kiti Mánver como Isabel é o carro-chefe em “Duas Covas”; Mánver é quem encerra a aura de enigma capaz de justificar todo o enredo, inclusive sublinhando o trabalho do núcleo jovem, liderado por Nadia Vilaplana. A maneira como Maíllo consegue dizer tudo em tão pouco tempo sem dúvida é o maior predicado da série, não obstante apele para uma solução deus ex machina no desfecho. O que nos faz voltar a Confúcio e responder à inquirição do primeiro parágrafo.
Série: Duas Covas
Criação: Agustín Martínez
Direção: Kike Maíllo
Ano: 2025
Gêneros: Drama, mistério, crime, suspense
Nota: 8/10
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