Houve um tempo, contudo, que havia apenas uma investidora mulher na Bolsa de Valores brasileira: Eufrásia Teixeira Leite. A investidora nasceu em Vassouras, no Rio de Janeiro, em 1850, em uma família rica e com tradição na produção de café.
Aos 23 anos, Eufrásia ficou órfã de pai e mãe e decidiu embarcar com a irmã mais velha, Francisca, e uma fortuna de cerca de 400 mil réis para a França. Embora a conversão não seja exatamente correta, seria o equivalente a cerca R$ 50 milhões.
Deixou para trás seu namorado, o abolicionista Joaquim Nabuco, e a vontade de cursar uma faculdade, o que era proibido para mulheres no Brasil naquele período.
Viva do lucro de grandes empresas
Em Paris, tornou-se uma das maiores investidoras em ações do mercado internacional. Multiplicou sua fortuna e deixou, em testamento – um inventário de 8.000 páginas – 37 milhões de réis, o que, na época, equivalia a quase duas toneladas de ouro. Considerando que o quilo do ouro custa entre R$ 863.000,00 e R$ 906.000,00 em março de 2026, sua fortuna equivaleria a centenas de bilhões de reais.
Não é razoável fazer uma conversão, considerando todas as mudanças econômicas que aconteceram no país. Contudo, Eufrásia Teixeira Leite chegou a figurar entre as 150 personalidades milionárias da França em sua época, e foi uma das pessoas mais ricas do Brasil.
Sua história ficou escondida por muitos anos até ser resgatada por Mariana Ribeiro, analista financeira CNPI e autora do livro Quero ser Eufrásia. Na obra, a autora resgata a série de direitos que as mulheres não possuíam na época de Eufrásia, como voto, o empreendedorismo ou mesmo a abertura de uma conta em banco. Se Eufrásia se casasse com seu namorado da época, por exemplo, Joaquim Nabuco, a posse de todos os seus bens passaria para ele. “Por isso, ela nunca se casou e, como não podia abrir suas próprias empresas, se tornou sócia dos outros, comprando ações em diferentes bolsas de valores pelo mundo já que não havia nenhuma legislação proibindo isso”, afirmou Ribeiro.
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Segundo a pesquisa de Ribeiro, Eufrásia teria se mudado para Paris temendo sofrer um processo judicial e ter sua sanidade mental questionada – o que aconteceu com alguma frequência entre as mulheres solteiras herdeiras de fortunas. A investidora só retornaria ao Brasil após o falecimento do seu padrinho, o então Barão de Vassouras, que teria o interesse de se apossar de sua fortuna.
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Eufrásia aprendeu sozinha e o fez por 55 anos, em 17 países e 9 moedas diferentes, em um período em que fazer o câmbio de uma moeda para outra não era algo simples.
Na Bolsa de Paris, Eufrásia precisava contar com a ajuda de um operador que levava suas boletas e executava suas ordens — já que mulheres não podiam entrar no espaço onde acontecia o pregão viva-voz. Ela usava a técnica de tape reading, que significa leitura de fita, e era baseada em informações de volume e preço de negociações: uma técnica ainda é usada hoje em dia, por traders.
Como fazem os investidores atualmente, Eufrásia buscava diversificar seus investimentos, aportando em setores mais tradicionais como imobiliário e de ferrovias e também nas áreas de maior inovação no período, como de eletrificação e de desenvolvimento de viscose. Ela também diversificava os mercados e tinha ações e opções na Bolsa de Nova York em operações em Paris.
No Brasil, investiu no Banco do Brasil, na Brahma e na Antarctica, que se uniram criando a Ambev em 1999 e hoje fazem parte da AB Inbev.
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Além disso, tinha investimentos em outras áreas: comprou um palacete em Paris [onde hoje fica a loja da Louis Vuitton, na esquina com a avenida Champs-Elysée], um terreno em Copacabana que deu origem a 27 lotes e foi uma das financiadoras das primeiras próteses para os veteranos de guerra, depois da Primeira Guerra Mundial.
Também foi uma incentivadora de outras mulheres, atuando como patrona de cantoras, artistas e até arqueólogas e seu nome consta entre os patronos de museus como o Louvre.
Eufrásia faleceu aos 80 anos, em 13 de setembro de 1930 – curiosamente, exatamente duas semanas depois de Warren Buffett nascer, nos Estados Unidos, em 30 de agosto do mesmo ano.
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Solteira e sem filhos, Eufrásia também não tinha irmãos ou sobrinhos vivos. A investidora optou por não deixar altos valores para parentes, apenas alguns títulos de dívida pública para três primos e imóveis e apólices para seus funcionários. Com isso, a maior parte da sua fortuna foi para instituições de educação, saúde e caridade em Vassouras.
Sua família tentou reverter o testamento judicialmente e questionar a sanidade mental de Eufrásia ao menos três vezes, inclusive, segundo Mariana Ribeiro, com a disseminação de histórias falsas como a que Eufrásia teria deixado uma boa parte de sua fortuna para um burrinho ser alimentado com pão de ló – o que é mentira.
O animal estava mesmo listado entre os bens da Eufrásia no seu inventário, mas a recomendação era que ele fosse vendido. Seu testamento de 8.000 páginas divididas em 30 volumes demorou 22 anos para ser processado, mas o reconhecimento demorou ainda mais: somente em 2019, Eufrásia foi reconhecida pela B3 e pela ONU Mulheres como a primeira investidora do Brasil.
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