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A obra-prima pouco conhecida produzida pelo mesmo diretor de “Anora“, na Netflix

“A Garota Canhota” gira em torno de uma mulher que retorna à cidade com as duas filhas para abrir uma barraca de macarrão em uma feira noturna e pagar dívidas urgentes. Enquanto o negócio engatinha, conflitos familiares e escolhas antigas começam a interferir diretamente na renda, nos vínculos e na rotina das três. O filme importa porque transforma decisões íntimas em consequências concretas, mostrando como tradição, culpa e sobrevivência se cruzam no mesmo espaço, afetando trabalho, afeto e futuro.

Shu-Fen, vivida por Janel Tsai, chega a Taipei com as filhas I-Ann (Shih-Yuan Ma) e I-Jing (Nina Ye) determinada a abrir uma barraca de macarrão, mas em “A Garota Canhota”, dirigido por Shih-Ching Tsou, a decisão de assumir as dívidas do ex-marido doente reabre conflitos familiares e ameaça a estabilidade que ela tenta construir.

Ela monta a barraca com o que tem e passa a trabalhar em ritmo contínuo, contando moedas no fim de cada noite. O plano é direto: vender o suficiente para pagar aluguel e manter as duas meninas na escola. Só que a notícia sobre o ex-marido, ausente há anos e agora em estado terminal, muda o cálculo. Shu-Fen decide custear despesas médicas e funerárias, mesmo sem ter como absorver esse gasto, e o caixa começa a falhar antes do esperado.

I-Ann reage de imediato. Ela já trabalha como atendente em uma barraca de noz de bétele, exibida como vitrine para atrair clientes, e não aceita a escolha da mãe. Para ela, assumir essa dívida é repetir um ciclo de sacrifício que nunca se paga. A tensão cresce porque não é apenas opinião: o dinheiro que entra no dia não cobre mais o aluguel da barraca, e a ameaça de perder o ponto passa a ser concreta.

Trabalho, dívida e desgaste

A rotina da feira não oferece pausa para reorganizar sentimentos. Shu-Fen acorda cedo, compra ingredientes, abre a barraca e tenta compensar o prejuízo aumentando a carga de trabalho. Em alguns dias, consegue vender bem; em outros, volta para casa com a sensação de que girou no mesmo lugar.

I-Ann, por outro lado, se distancia. Ela mantém o emprego, entra em um relacionamento com o chefe, A-Ming, e passa a circular por espaços onde tenta recuperar uma vida que foi interrompida. Em uma festa, reencontra colegas que lembram quem ela era antes de abandonar a escola, e o contraste pesa. Quando a situação se torna desconfortável e ela é exposta a investidas agressivas, ela recua, mas o episódio reforça a sensação de deslocamento.

O envolvimento com A-Ming complica ainda mais o cenário. Quando a esposa dele descobre o relacionamento e confronta I-Ann no trabalho, a situação deixa de ser privada e vira risco imediato. I-Ann revela que está grávida e decide sair do emprego, perdendo sua principal fonte de renda naquele momento.

A mão esquerda vira problema

Enquanto isso, I-Jing enfrenta um conflito que parece pequeno, mas cresce rápido. Ao reencontrar os avós, ela passa a ser proibida pelo avô de usar a mão esquerda, considerada inadequada dentro da tradição familiar. O impacto não fica no campo simbólico.

A menina interpreta a regra de forma literal demais. Se a mão esquerda é “errada”, então o que ela faz com ela não conta. A partir daí, começa a pegar pequenos objetos de outras barracas sem perceber a gravidade do gesto. O que para ela parece uma lógica infantil vira um problema real, com risco de exposição e punição.

A situação piora quando, em um momento de distração, ela provoca a queda do animal de estimação da família. O acidente a abala, e ela passa a associar o ocorrido à ideia da “mão errada”, carregando uma culpa que ninguém consegue dissolver de imediato.

Segredos que não cabem mais

A tensão financeira leva Shu-Fen a buscar ajuda na família, mas a recusa inicial fecha essa porta. Ao mesmo tempo, I-Jing acaba se envolvendo, sem entender completamente, com objetos que encontra na casa da avó e que têm valor maior do que ela imagina. Quando tenta se desfazer deles, a situação volta para dentro da família e expõe o que estava sendo ignorado.

I-Ann assume o controle da situação com a irmã. Ela explica, corrige, acompanha a devolução dos itens e tenta desfazer a lógica que levou I-Jing até ali. É um dos poucos momentos em que ela age sem confronto, buscando reparar um erro em vez de ampliá-lo. Isso cria um pequeno deslocamento na relação entre as duas.

Mais tarde, durante uma celebração familiar, tudo o que vinha sendo contido se rompe. A presença de A-Ming e sua esposa transforma o encontro em exposição pública. A gravidez, o relacionamento e as escolhas de I-Ann são colocados diante de todos, e a reação de Shu-Fen é imediata: vergonha e cobrança.

I-Ann responde no mesmo nível. Em meio ao conflito, ela revela um segredo guardado por anos. A revelação reorganiza completamente as relações ali presentes, retirando qualquer possibilidade de manutenção das aparências.

O que fica depois da ruptura

Depois do choque, há mudança de posição. I-Ann retorna para a barraca, não como ajuda ocasional, mas como parte da operação. Ela assume o trabalho ao lado da mãe, agora com menos resistência e mais consciência do que está em jogo.

A relação com I-Jing também começa a se reorganizar. Sem o peso do segredo, as duas passam a construir algo mais direto, ainda frágil, mas menos distorcido. Não é um recomeço limpo, e ninguém ali parece esperar por isso.

“A Garota Canhota” acompanha essas escolhas sem tentar suavizar suas consequências. O que move a história não são grandes gestos, mas decisões que cobram resultado no dia seguinte. A barraca continua aberta, as dívidas ainda existem, mas a forma como cada uma ocupa seu lugar muda o suficiente para manter tudo funcionando, pelo menos por enquanto.

Filme:
A Garota Canhota

Diretor:

Shih-Ching Tsou

Ano:
2025

Gênero:
Drama

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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