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A obra-prima genial de Alex Garland, na Netflix, que diz mais sobre nosso mundo de hoje do que gostaríamos de admitir

“Guerra Civil” (2024), dirigido por Alex Garland, acompanha um grupo de jornalistas que atravessa os Estados Unidos em colapso enquanto uma guerra interna avança sem explicações didáticas. A história segue Lee (Kirsten Dunst), fotógrafa veterana que já viu violência demais para romantizar o ofício; Joel (Wagner Moura), repórter impulsivo, falante e constantemente à beira do erro; Jessie (Cailee Spaeny), jovem fotógrafa que entra na estrada movida mais por urgência do que por preparo; e Sammy (Stephen McKinley Henderson), jornalista experiente que entende que sobreviver também é parte do trabalho. O objetivo é claro desde o início: chegar a Washington e tentar entrevistar o presidente antes que o poder desmorone de vez.

Garland escolhe não explicar as causas da guerra. Isso não é descuido, é método. O conflito já aconteceu, o que importa agora são as consequências práticas. Estradas bloqueadas, cidades vazias, homens armados decidindo quem passa e quem não passa. Lee conduz o grupo com frieza profissional, sempre avaliando risco e ganho. Joel aposta na conversa, às vezes demais, usando o carisma como ferramenta de sobrevivência. Jessie observa tudo com olhos atentos, aprendendo rápido que estar ali não é um gesto simbólico, é um teste físico e emocional constante.

O filme funciona melhor quando se concentra no cotidiano brutal desse percurso. Não há discursos inflamados nem grandes explicações políticas. Há decisões pequenas que custam caro. Fotografar ou abaixar a câmera. Avançar ou recuar. Ficar alguns minutos a mais ou perder a chance de acesso. Garland filma essas escolhas com tensão seca, sem trilha emotiva guiando a reação do espectador. A violência aparece de forma abrupta, quase sempre sem aviso, como acontece fora da ficção.

Kirsten Dunst entrega uma das atuações mais contidas e eficazes de sua carreira. Lee não precisa explicar quem é; o corpo cansado, o olhar sempre alerta e a forma como ela reage a cada novo perigo dizem tudo. Wagner Moura traz energia e nervosismo para Joel, um personagem que entende o peso da informação, mas nem sempre mede o custo da própria coragem. Cailee Spaeny funciona como ponto de entrada para o público: Jessie aprende rápido, erra, se assusta e endurece, sem que o filme transforme esse processo em lição edificante.

“Guerra Civil” também fala sobre jornalismo sem idealizar a profissão. Não há heroísmo limpo aqui. Há negociação, medo, cansaço e escolhas que deixam marcas. A imprensa não surge como salvadora nem como vilã, mas como um grupo de pessoas tentando trabalhar em meio ao colapso. O filme observa esse esforço com distância crítica e certo desconforto, recusando frases de efeito e cenas pensadas para aplauso fácil.

Alex Garland constrói um suspense que não depende de reviravoltas mirabolantes. A tensão vem da imprevisibilidade do caminho e da fragilidade de qualquer acordo. Em um país fragmentado, autoridade muda rápido, e nenhuma decisão garante segurança duradoura. O resultado é um filme áspero, inquieto e profundamente físico, que prefere acompanhar o desgaste dos personagens a oferecer respostas prontas.

Sem entregar soluções nem finais reconfortantes, “Guerra Civil” se impõe como uma experiência incômoda e atual. É um filme que observa mais do que explica, que provoca mais do que consola, e que encontra sua força justamente na recusa de transformar o caos em espetáculo fácil.

Filme:
Guerra Civil

Diretor:

Alex Garland

Ano:
2024

Gênero:
Ação/Guerra/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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