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A Netflix tem um filme que parece sobremesa — e termina como saudade

Wes Anderson inventa mundos a seu talante. A faculdade de conceber outras terras, outros mundos e, claro, pessoas adequadamente estranhas a fim de os habitar é um valioso predicado artístico que Anderson burilou ao longo de quase três décadas de carreira, e “O Grande Hotel Budapeste” quiçá seja o filme no qual veja-se todo esse espetáculo de criatividade a se realizar em seu esplendor, servindo a poesia, a ilusão, mas não só. Zubrowka, um país fictício da Europa Central, continua a existir, em diferentes pontos do globo terrestre, agora trabalhando em unidade com a inteligência artificial e oferecendo perigos com que o cinema jamais ousou sonhar. Anderson sai do mundo real para falar deste mesmo mundo, sempre caprichando nas tomadas cheias de ângulos improváveis, nos diálogos que mais escondem que revelam e, por evidente, nas cores que são parte de sua assinatura. Elementos que se amalgamam e dão à plateia novos pontos de vista e novas conclusões sobre o que achava já saber.

O ouro no arco-íris

O Grande Hotel Budapeste já teve seus dias de glória, mas hoje atravessa uma fase ruim, pelo menos no que toca a suas instalações. Por outro lado, Moustafa, o proprietário do estabelecimento, continua riquíssimo, mas hospeda-se no menor quarto do prédio, o que intriga o jovem escritor que deseja perfilá-lo. Essa figura algo impertinente costura alguns dos momentos mais lúcidos do filme, e Jude Law ajuda quem assiste a ir desvendando os segredos que o hotel e seu dono guardam. Anderson e o corroteirista Hugo Guinness explicam que Moustafa já foi Zero, o mensageiro do Budapeste cinquenta anos antes, período durante o qual foi conhecendo cada detalhe do edifício, depois de admitido pelo gerente, o senhor Gustave H. Uma parte da história dos dois alude a uma tal Madame D., e o diretor, como é de seu feitio, reúne seu ótimo elenco para começar a fornecer pistas quanto a suas pretensões. Nos créditos após a última cena, Anderson informa ter feito uma releitura de “O Mundo de Ontem” (1942), do austríaco Stefan Zweig (1881-1942), e então as passagens nas quais aparecem juntos Law, F. Murray Abraham, Ralph Fiennes e Tilda Swinton ganham um sabor agridoce, quase amargo. Ao cabo de cem minutos que voam, “O Grande Hotel Budapeste” lembra uma fábula antiga sobre o bem escondido no mal e vice-versa, malgrado o colorido próprio de um artista bastante original e que não foge a suas obsessões.

Filme:
O Grande Hotel Budapeste

Diretor:

Wes Anderson

Ano:
2014

Gênero:
Aventura/Comédia

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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