“007: Cassino Royale” apresenta a estreia oficial de James Bond no posto 00 e faz questão de mostrar que a promoção vem acompanhada de cobrança imediata. Sob direção de Martin Campbell, o filme coloca Daniel Craig na linha de frente como um agente ainda em formação, impulsivo e físico, muito diferente da elegância automática de seus antecessores. A missão é clara: derrotar Le Chiffre (Mads Mikkelsen), o banqueiro que administra o dinheiro de organizações terroristas, num torneio de pôquer em Montenegro. Se ele perder, sua estrutura financeira desmorona. Se vencer, fortalece quem vive do caos.
A trama começa em Madagascar, onde Bond persegue Mollaka (Sebastien Foucan) numa sequência que já define o tom: direto, brutal e pouco preocupado com sutilezas. Ele quer informação rápida, mas a forma como age chama atenção demais e cria ruído político. Judi Dench, como M, surge justamente para enquadrá-lo. Ela não duvida da capacidade dele, mas questiona o método. A tensão entre os dois não é decorativa; ela estabelece limites reais e deixa claro que cada passo errado tem consequência institucional.
Seguindo pistas por conta própria, Bond chega às Bahamas e cruza o caminho de Alex Dimitrios (Simon Abkarian) e de Solange (Caterina Murino). Ele manipula, observa e força situações para alcançar o nome que realmente importa: Le Chiffre. É aqui que o filme começa a trocar a correria por estratégia. Bond não está apenas correndo atrás de vilões; ele está tentando entrar no centro financeiro da operação. E isso exige mais do que força física.
O coração da história é o Cassino Royale, em Montenegro. O MI6 envia Bond para a mesa de pôquer com dinheiro do governo britânico e uma supervisora nada decorativa: Vesper Lynd, vivida por Eva Green. Ela controla os recursos, questiona decisões e não se deixa impressionar pelo charme do agente. A relação entre os dois é um dos pontos altos do filme. Há tensão, ironia e uma disputa silenciosa por controle. Bond quer autonomia total; Vesper exige responsabilidade. Cada ficha apostada depende dessa dinâmica.
Na mesa, Le Chiffre observa Bond com frieza calculada. Mads Mikkelsen compõe um antagonista contido, quase clínico, que transforma cada rodada em duelo psicológico. O suspense nasce do jogo, das pausas, dos olhares e das decisões financeiras. Campbell conduz tudo com clareza: a câmera mostra o essencial, retarda certas revelações e mantém o foco na tensão crescente. Não é apenas um jogo de cartas; é uma disputa por poder e sobrevivência.
Ao longo do torneio, Bond é obrigado a lidar com limites concretos. Ele perde, recupera, recalcula. Em alguns momentos, precisa reconhecer que não controla tudo. Essa vulnerabilidade dá humanidade ao personagem. Daniel Craig interpreta um Bond que sangra, erra e aprende. Ele não é ainda o ícone polido; é um agente testado sob pressão.
Fora da mesa, as ameaças continuam. Le Chiffre não depende só das cartas para tentar reverter sua situação. O risco físico cresce e reforça o clima de thriller. Bond precisa proteger a missão e também quem está ao seu lado. Vesper deixa de ser apenas guardiã do dinheiro e se torna peça emocional da história. A confiança entre eles passa a ser tão importante quanto qualquer jogada.
“007: Cassino Royale” dá certo porque entende que reiniciar um personagem exige risco. Martin Campbell aposta numa abordagem mais crua, reduz os excessos tecnológicos e coloca o agente frente a frente com decisões que têm custo real. O resultado é um filme de ação que também é estudo de caráter. Sem revelar desfechos, basta dizer que a operação redefine Bond por dentro. Quando ele deixa Montenegro, já não é apenas um recém-promovido tentando provar valor; é alguém que entendeu o preço de carregar o número 007.
Filme:
007: Cassino Royale
Diretor:
Martin Campbell
Ano:
2006
Gênero:
Ação/Aventura/Suspense
Avaliação:
9/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★

