Para Alain Resnais (1922–2014), o mais humano dos sentimentos é também o mais desditoso. Ao detalhar em “Hiroshima, Meu Amor” (1959) — cujo roteiro é assinado por ninguém menos que Marguerite Duras (1914-1996) — o encontro de uma atriz francesa que vai para o Japão e se enamora de um arquiteto local, Resnais não quis falar de uma relação que começa feito outra qualquer, a partir da atração visual, dos tantos jogos de sedução de uma e outra parte (em especial do lado feminino, como sói acontecer), de conversas harmoniosas, regadas a um bom vinho à beira de um lago, numa paragem bastante isolada, de preferência. No momento em que se propõe a falar de um romance com todas as chances de dar errado, o diretor assume riscos e seduz o público, fórmula seguida por Nina Rives em “French Lover”. A paixão de um ator famoso por uma chef que vira garçonete depois de perder seu restaurante num divórcio turbulento é conduzida por Rives, como sói acontecer com as comédias românticas francesas, com leveza, de um modo despretensioso, com muito espaço para o humor, o que resulta numa catarse geral sobre as fronteiras entre o que pode ir à praça e o que deve ficar na cama.
Abel Camara encarna o próprio amante francês ao estrelar o comercial de um desodorante chamado French Lover, a primeira das muitas blagues metalinguísticas de Rives e dos corroteiristas Hugo Gélin e Shirli Mushoyef. Enquanto isso, não muito longe dali, Marion tenta recuperar um pouco do prejuízo deixado pelo agora ex-marido e não fica nada perplexa no momento em que Abel, um dos homens mais badalados do showbiz nacional, entra no bistrô onde está trabalhando. Ela não faz nenhuma questão de bajulá-lo, ele gosta e mesmo que sempre fique uma tensão no ar, tanta que Marion termina por abandonar o posto, mantém-se a vontade de uma conversa, atribulada no início, mas promissora. Sem o menor embaraço, Rives compõe a epifania de um possível novo afeto entre os protagonistas, e pelas duas horas restantes “French Lover” move-se acompanhando a montanha-russa de emoções que colhe Abel e Marion. O filme seria pouco mais que um breve passatempo não fosse a óbvia dedicação do elenco, a começar por quem não sai de cena nunca.
A pretexto de trocar de camisa — que Marion molhou de uísque quando jogara a bebida no chefe —, ele vai parar no apartamento dela. Os dois mal trocam um beijo inocente, mas fica no ar a necessidade de verem-se de novo, apesar de todas as diferenças. Antes de sair, Antoine, o ex-cônjuge vivido por Amaury de Crayencour, chega, o que obriga o suposto pretendente a esconder-se no banheiro onde também está Claudinha, a dogue alemã de Marion, e indo de sequências de humor ameno para lances conflituosos, Omar Sy e Sara Giraudeau conquistam o público. Por mais que negue, Marion não domina o que passa a sentir por Abel, que também quer engatar um namoro, mas é sabotado por sua entourage, que o aconselha a procurar mais uma das mulheres fatais com quem costuma ter relacionamentos tão excitantes quanto fugazes. Vem à memória “Um Lugar Chamado Notting Hill” (1999), de Roger Michell (1956-2021), mas Rives é hábil em conferir personalidade a “French Lover”, o que resta inequívoco no desfecho, ao som de uma versão de “Hino ao Amor” (1950), de Édith Piaf (1915-1963) e Marguerite Monnot (1903-1961). Como canta La Môme Piaf, o céu escurece, mas o amor verdadeiro basta.
Filme:
French Lover
Diretor:
Nina Rives
Ano:
2025
Gênero:
Comédia/Romance
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★
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